Posted By on Mar 26, 2020

Quarentena Assintomática – I

EMACO


Quarentena Assintomática – I

Sequenciando o desafio lançado aos associados da Espaço e Memória, estamos a inaugurar este espaço destinado a textos da autoria dos nossos associados com o primeiro contributo que nos chegou através de Henrique Seruca e com o título A Embaixatriz.

A embaixatriz

Um dia recebi, no meu consultório em Lisboa, um paciente especial. Era o filho mais velho do embaixador de um país do próximo oriente, acompanhado apenas pelo pai. O embaixador era um príncipe, de religião muçulmana.

O problema do miúdo era uma malformação genital importante que necessitava uma cirurgia correctiva, com hospitalização de vários dias. Explicada a situação ao pai, sugeri a hospitalização numa clínica privada de Lisboa, onde eu realizava cirurgias.

O príncipe-embaixador anuiu, mas solicitou alguns dias para se organizar. A cirurgia nada tinha de urgente e concordei.

Sua Alteza foi ao hospital acompanhado por um secretário e pediu para falar com o director da clínica e visitar o espaço, de alto a baixo. Pediu que lhe fosse reservado todo um piso, apesar de só ocupar uma grande suite. A suite foi limpa, pintada, equipada com um excelente frigorífico e uma grande televisão, e o chão coberto com tapetes orientais enviados da embaixada. Os tapetes estavam contraindicados num ambiente hospitalar, mas Sua Excelência exigiu a colocação dos tapetes, entre os quais três de oração. Na suite foram instaladas três camas, a do paciente, a da mãe, a embaixatriz, e outra para uma aia. À porta do quarto e à porta do hospital foram colocados seguranças da embaixada, em permanência.

A cirurgia foi realizada, com sucesso, e o pós-operatório na clínica decorreu tranquilamente, ao longo de uma semana.

A embaixatriz era uma senhora jovem, envolta num lindíssimo chador que só deixava ver um bonito rosto, sem que se vislumbrasse um só cabelo. Todos os dias o seu vestuário era diferente, ou de algodão finíssimo, ou de seda. Recebia-me com um ligeiro e gracioso aceno de cabeça, respaldada pela aia, qual cão de guarda, que a seguia como uma sombra. Eu fazia o penso, trocava umas palavras em inglês e só voltava no dia seguinte.

Reparei que todos os dias os tapetes orientais eram diferentes dos da véspera. Curioso, perguntei ao pessoal da clínica o que se passava. Explicaram-me que, todos os dias, um funcionário da embaixada chegava com rolos de tapetes debaixo dos braços, trocava os que estavam na suite pelos novos tapetes e regressava à embaixada com os tapetes da véspera. Um luxo verdadeiramente oriental.

O embaixador e a esposa estavam radiantes com o resultado da cirurgia, pois o filho ficara como se nunca tivesse tido qualquer problema no seu aparelho genital. Quando anunciei que o rapaz tinha alta, a embaixatriz sorriu, muito feliz, e disse-me: “Não vá embora, pois quero oferecer-lhe uma coisa…” E foi à outra divisão da suite buscar algo.

Eu não estava à espera de qualquer presente, mas pensei logo: “Vai oferecer-me um tapete oriental, com certeza. Os príncipes do próximo oriente costumam ser muito generosos…”.

A embaixatriz regressou, de sorriso rasgado, com uma caixa de bombons aberta, nas mãos. “Faça o favor de tirar um…”

– Henrique Seruca26 de Março de 2020

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