Posted By on Mai 7, 2020

Quarentena Assintomática – XXXI

EMACO


Quarentena Assintomática – XXXI

Autora: Ana M. Patacho

QUINQUAGÉSIMO PRIMEIRO DIA

E as notícias ouvem-se; e as notícias vêm-se. E os sítios passam frente aos nossos olhos todos os dias, e as imagens desfolham-se na nossa memória.

Caindo como tordos pelas janelas que vamos rasgando nestes cinquenta e um dias em que um emaranhado dilúvio de informações se converteu numa arca encerrada, atirada ao acaso por um deus desconhecido, que obriga um planeta inteiro a uma acção global perversa, como nunca antes sentida e, muito menos, imaginada.

Je vous parle d’un temps
que les moins de vingt ans
ne peuvent pas connaître
Montmartre en ce temps-là
accrochait ses lilas
jusque sous nos fenêtres
e, se o humilde quarto mobiliado
que nos servia de ninho
não parecia valer muito
foi lá que a gente se conheceu.
La bohème, la bohème
Ça voulait dire on est heureux
La bohème, la bohème.

Mas há dias que custam mais. E há também dias em que deixamos deslizar a memória para fora de nós. E então viajamos como se numa máquina de tempo estivéssemos encaixados. Sozinhos. Sem interlocutor com quem falar senão nós próprios. O silêncio a preencher-nos por inteiro. A carregar o fardo connosco. Ou o silêncio como alter ego único que nos resta?

E eis que Montmartre desce sobre nós na voz quente de Aznavour, com quem curiosamente me cruzei logo a atravessar a porta do aeroporto Le Bourget, na minha primeira chegada a Paris, sozinha, um mês antes do Maio de 68. Foi um bom presságio para a minha estadia.

Aquele cantor arménio pequenino, que nos anos sessenta, simbolizou para largas gerações do mundo ocidental, as minorias de que pouco sabíamos nessa altura. O cantor da voz romântica, mas não só. Marca de toda uma geração gizada pelos ideais de liberdade que vinham da Revolução Francesa, marcantes na Língua e Cultura francófonas.

Em tempos de gerações ainda alheias à corrente anglo-saxónica que os Beatles introduziram na segunda metade do século XX.

La bohème, la bohème. Ça voulait dire on est heureux

Montmartre, onde marquei hotel da última vez que estive em Paris, em 2009, e, tal como da primeira vez também na Páscoa.

Só que dessa vez não havia nas ruas do Quartier Latin pedras arrancadas, nem ouvi palavrões em português de operários que trabalhavam sem poderem saber que ouvidos compatriotas por ali estivessem.

Mas também não me cruzei à chegada, com Aznavour, a atravessarmos ao mesmo tempo, em sentidos opostos, a porta do aeroporto que também não foi o mesmo.

Não voltei a Montmartre porque não voltei a Paris, mas a pandemia trouxe-me as imagens televisivas de uma Montmartre deserta que me levou a estar às voltas com a memória. Nesse dia, o quinquagésimo primeiro do confinamento, La Bohème preencheu-me por completo e a Liberdade voltou a estar inteira na memória.
*
E agora, nos dias cinzentos do isolamento a que estamos submetidos, resta-nos cultivar a liberdade interior. Para dialogar com ela dentro de nós e a podermos manter.

Só a essa nos podemos agarrar. A liberdade de pensamento, a liberdade de obedecer a este confinamento que nos deixa privados de uma coisa tão simples como a actividade do corpo. Que é bom para uma mente sã e tão necessária é aos que foram nele apanhados mais velhos só porque nasceram há mais anos.

Ça voulait dire Somos felizes.


2020, Ana M. Patacho

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