Posted By on Set 29, 2021

Textos por Oeiras
– Um mau aprendiz de arqueólogo e os Maias

EMACO


Textos por Oeiras
– Um mau aprendiz de arqueólogo e os Maias

Autor: Fernando Lopes

O título não remete para uma alusão a Eça de Queiroz. Antes, refere-se a um casal de investigadores com quem este “aprendiz” podia e devia ter aprendido muito mais. As circunstâncias e as opções tomadas terão sido a razão.

A ligação deste casal a Oeiras só poderá ser indirecta. Recordo uma visita da Espaço e Memória ao Algarve e, em particular a Tavira, onde tivemos comos guias o aludido casal de arqueólogos. Como sabemos a arqueologia remete para o passado, mas nem sempre remoto. No nosso Concelho são vários os exemplos do bom uso da investigação e restauro, assim como os maus exemplos de indiferença, descaracterização e até destruição de Patrimonio histórico e arqueológico.

Em boa verdade, foi a paixão pela História que, no âmbito curricular, me levou a encontrar a Dra. Maria Maia e depois o Dr. Manuel Maia. Mas seria no Alentejo profundo, no Concelho de Castro Verde, que principiou o meu interesse e fugaz contacto com a arqueologia.

Estávamos nas férias da Páscoa, lá por meados de 80. O meu carocha levava como pendura um jovem colega do curso de História, hoje catedrático, e lá ia, ronceiro, a caminho de Castro Verde. Bem dizia eu que ia a 120 Km/hora, mas na realidade os carros passavam velozes por nós. A demora em percorrer a planura explicava-se pela avaria de há muito no conta-quilómetros de um “carro do povo” de 1960.

Pernoitávamos numa camarata instalada numa casa cedida pela Câmara. Rapazes, eu serôdio, para um lado  e raparigas para outro, como convinha, que nestas coisas havia que cuidar do que poderiam dizer os vizinhos alentejanos.

Uma empresa multinacional, instalada em Neves Corvo, manifestava interesse em antecipar as actividades mineiras pelo levantamento arqueológico da região afectada. Os estudantes e o casal de investigadores faziam o trabalho de campo e a Empresa colaborava, fornecendo almoço àquela malta da cidade.  

Naquela altura os dias alternavam a canícula com o vento cortante e por vezes gélido. Dobrado, escavava com uma pequena colher de pedreiro. De tal modo era o entusiamo da espera do achado, que só mais tarde dei nota da difificuldade em engulir os alimentos. Era como se tivesse dobrado a glote, ou coisa parecida. Felizmente não era nada de grave.

Em boa verdade,  o que este Indiana Jones gostava era partir pelo campos fora, no Jeep dos professores, sempre acompanhados pelo seu cão pastor alentejano, à procura de locais assinalados para prospecção. E lá surgiam, ao longe, bandos de patos em debandada de um qualquer pego quase seco, ou algumas abetardas alimentando-se no restolho da  estepe dourada.

Nessas andanças, recordo a prospecção no “Castro de Montelo”, que nessa altura estava abandonado, de onde vi surgir sigilatas. Castro imponente sobranceiro a uma ribeira, com ocupação da idade do ferro do período romano. Foi então que me dei conta da riqueza patrimonial do nosso país jazendo enterrada ou ao abandono. Mais que aprendiz de arqueólogo, considerei-me um quase turista, talvez merecedor da paciência dos Maias. Sucederam-se algumas visitas em períodos de férias, cuja lembrança já se desvanece.

Não era o tempo das cerejas, que julgo não medrarem na quentura alentejana, mas recordo, com alguma nostalgia, aqueles tempos da Feira de Castro, no Outono, e das coversas e dos passeios pela vila alva e aldeias em torno, ainda não atingidas pelo “progresso”.

Talvez em memória do muito simpático casal que partiu.

Nota: O Doutor Manuel Maia partiu hoje. 23 de Setembro de 2021,  ao encontro da Doutora Maria Maia, que o precedeu na viagem eterna.

Fernando Lopes

1 Comment

  1. Viva Fernando! Belo texto de fragmentos da tua memória por terras alentejanas e de sentida homenagem aos Maias que, em Castro Verde, encontraram o seu refúgio e a distância suficiente para ter descanso da pressão académica… Nesses mesmos tempos, estava mesmo “ali ao lado”, em Mértola, a começar o meu caminho, que se cruzou inúmeras vezes com o dos Maias, meus professores e depois companheiros na lide da salvaguarda e valorização da história e património local.

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