Posted By on Out 19, 2021

Textos por Oeiras
– Ossos Duros de Encontrar

EMACO


Textos por Oeiras
– Ossos Duros de Encontrar

Autor: Fernando Lopes

Corria o ano de 1583 quando o tabelião Luís Bulhão certificava o contrato de aquisição de uma quinta em Laveiras, por parte de D. Luís de Almeida, cavaleiro de El Rei, a D. Jerónimo Lobo, tutor de Miguel de Almeida.

O novo proprietário havia feito fortuna nas ilhas do Golfo da Guiné. Bem relacionado, casara com Simoa Godinho, “parda” de nascimento, descendente dos primeiros povoadores de São Tomé, senhora de fazendas de produção açucareira e de grande número de cativos africanos. O tráfico negreiro não lhes era estranho. Conflitos sociais ocorridos nas ilhas em meados do século XVI, fizeram o casal instalar-se na capital, manejando a partir daí os seus negócios que incluíam investimentos fundiários no reguengo de Oeiras.

Em 1603, já falecido o casal, na presença do representante do julgado de Oeiras, é confirmada a entrega da quinta de Laveiras aos cartuxos, mediante acordo entre a Ordem adquirente e a Misericórdia de Lisboa, executante do testamento deixado por Dona Simoa e aberto em 1594, no dia imediato à sua morte.

Só a vontade régia de Filipe I e a intervenção papal permitiram aos monges brunos a posse da quinta e a instalação do Mosteiro. Das “cabanas” iniciais ao imponente cenóbio joanino, decorreram fases construtivas e alterações sucessivas, seguidas do restauro, após o terramoto de 1755, atribuído a Carlos Mardel.

Em 1833, temendo a aproximação das tropas liberais, os monges abandonam o Mosteiro de Nossa Senhora do Vale da Misericórdia. Com a extinção das ordens religiosas e a expropriação do património, recolhidas parte das obras de arte, o edificado e a quinta são vendidos a um particular e, posteriormente, perdidas a favor do Estado.

No final da década de 70, do século XIX, iniciam-se as obras de construção do Forte de D. Luís, em Caxias, no terminus do Campo Entrincheirado de Lisboa. O Palácio Real passa a sede do Governo Militar e a Cartuxa é transformada em caserna para instalação de sapadores em serviço no complexo militar que rodeava Lisboa.

Segundo notícia no “Diário Ilustrado”, de 27 de Julho de 1880, no início da adaptação da igreja e sacristia em habitáculos militares, um oficial avisado faz uma descoberta macabra de ossadas abandonadas em cubículos e capelas. Também são referidos dois caixões com os corpos do bispo do Funchal e do bispo do Porto que foi, também, Patriarca eleito de Lisboa e Govenador do Reino. Terá sido grande a impresão dos povos em redor com o estado intacto dos corpos dos eclesiásticos ainda paramentados.

O oficial responsável pelo quartel improvisado, com a colaboração da administração do Concelho, procedeu à transladação das ossadas que estavam dispersas para o cemitério de Oeiras, acorrendo a população e o clero local em sentida homenagem processional. Já, segundo a notícia, os corpos dos prelados permaneceram encaixotados nos seus cubículos. Quando solicitada a intervir, a Câmara alegou falta de verba. Por seu turno, a administração central não se manifestou, talvez porque estivesse ocupada com a substituição do governo. No entanto, a Câmara lá aceitou ceder o terreno para o enterramento. Também o clero e os militares manifestaram disponibilidade para colaborar no transporte e acompanhamento dos féretros dos bispos. Mas não. Acabou por faltar a vontade e a decisão de pagar as depesas capazes de conferir as honras fúnebres devidas a tão altos dignitários.

Vem este artigo a propósito do trabalho de pesquisa arqueológica que, certamente, irá acompanhar as obras de limpeza, de “reabilitação” e de restauro do complexo adentro da cerca. Na verdade, as ossadas dos monges cartuxos, tradicionalmente enterradas no chão do Claustro Maior, e o destino dos corpos dos eclesiásticos, devem motivar uma investigação documental que, por certo, também a CMO não deixará de fazer.

Os séculos de história do Mosteiro e a presença posterior do Instituto de Reeducação, fundado pelo Padre António de Oliveira, no início do século XX, clamam por uma intervenção, que se espera cuidada e atenta, por forma que os actuais e vindouros visitantes compreendam a importância do lugar. Com efeito, só temos que augurar os melhores resultados dos trabalhos agora iniciados, tanto mais que em 2018 a DGPC já procedeu à abertura do processo de classificação do Mosteiro e da Igreja, conforme solicitação da CMO em 2017.

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