Posts by jorgecastro


Autora: Ana Gaspar

Olá! Eu sou a Ana Maria Gaspar, vivo em Oeiras, mas nesta altura fugi de Oeiras. Tenho uma casa numa aldeia no sopé da serra de Montejunto e resolvi vir para cá. Além de ter aqui a viver a família chegada, estou muito menos presa do que se estivesse em Oeiras. Aqui da minha janela vejo a serra de Montejunto e um terreno grande livre de casas e de gente onde os meus olhos não se sentem tão presos como se estivesse no apartamento de Oeiras. Lamento, queridos amigos oeirenses.

Estou em teletrabalho e vou uma vez por semana ao meu serviço em Lisboa. Fizemos uma escala de trabalho onde cada um de nós se desloca apenas uma vez por semana. A mim calhou-me a segunda-feira.

Teria tempo para limpar as flores de ervas daninhas e até de semear e plantar flores, legumes e o mais que fosse, não fora um problema nas articulações do joelho direito que me impede de andar durante algum tempo sem que tenha dores. Até já tinha marcado uma infiltração no joelho numa clínica da CUF que, compreensivelmente, desmarcou e voltou a desmarcar o acto clínico.

Poderia estar melhor, mas há coisas bem piores.

Agora bom, bom é saber que no piso de baixo tenho a família que me pode apoiar e também que o meu cão, o Caramelo, de quase 8 meses se porta agora muito melhor, apesar de continuar a fazer as traquinices próprias de um jovem animal. Agora tem a dona só para ele durante todo o dia e parece outro cão, menos irrequieto e sem necessidade de fazer disparates para chamar a minha atenção, sempre que chegava a casa depois de tantas horas sozinho.

Por isso, posso dizer-vos que estou a apreciar esta nova situação e, posso dizer-vos, que nunca falei/escrevi tanto a tanta gente para saber como cada um está. E todos estão bem, o que é formidável. Espero que vocês também.

Um grande abraço e até um destes dias.

Ana

PS – E faço a proposta à EMACO para – quando for possível – virmos visitar o que resta da Real Fábrica de Gelo, criada por alvará de D. José, precisamente na serra de Montejunto e que abastecia a corte e a cidade de Lisboa.

Ana Gaspar, em 29-03-2020

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Quarentena Assintomática – V


Posted By on Mar 29, 2020

Autora: Maria Lúcia Saraiva

Era uma vez uma Menina

Nem todos os princípios de vida são fáceis e felizes para alguns…

Vou contar uma história começando da forma tradicional:

Era uma vez, uma menina, simplesmente uma menina, com muitos sonhos; muito sensível, uma sonhadora que se sentia muito só, com fantasmas, (próprios da idade), apesar de viver numa numerosa Família…

O seu rosto era marcado por uns olhos negros brilhantes, um nariz arrebitado e perfeito e uma boca bem delineada que poderia expandir-se em sorrisos, mas não, a sua expressividade era de tristeza.

Quando ela ia passar férias na casa de campo, pediu a um dos empregados para lhe fazer um baloiço no imbondeiro, junto ao rio, e aquele lugar, passou a ser o seu refúgio, pensava no «Zezé – do livro Meu Pé de Laranja Lima» -, aquela gigantesca árvore passaria a ser a sua confidente e falava com ela sobre os seus medos e anseios e perguntava-lhe o que fazer, para os ultrapassar, e a resposta vinha nos cânticos e chilreios bem animados da passarada.

Cresceu, fez-se mulher de trato simples, muito meiga e tímida, talvez por isso, todos gostavam dela.

Não precisava de muitos enfeites, para dar nas vistas, porque ela exibia uma postura corporal e uma beleza peculiar.

A sua infância fora de aprendizagem imposta, teve que se dedicar aos bordados, à costura, ao tricot, ao crochet, aos tachos, a arrumação de uma casa e a mesa de refeições tinha que ser posta com todo o rigor e requinte, ainda que fosse a comida mais simples. Uma verdadeira «Dona de Casa».

O seu olhar era triste e já carregava alguma dor de histórias da sua infância mal resolvidas ou impróprias para a sua tenra idade. Ainda assim o seu propósito não se alterou e manteve a determinação em realizar os seus sonhos.

Nas noites carregadas de nuvens negras ela pintava as estrelas no céu, preenchia assim os seus vazios, e afastava as suas inseguranças, que eram muitas, não sabia ainda ao certo como delinear o seu futuro, nos seus verdes anos.

Na sua infância nunca podia ler à noite, porque não a deixavam, não havia luz eléctrica e havia o adormecer obrigatório, no dia seguinte todos acordávamos cedo para irmos para a Escola e Liceu que ficavam longe de casa. Mesmo assim às escondidas acendia o candeeiro de petróleo e ia para a casa de banho ler, pois ficava longe do quarto dos pais….e quantas noites fez isso. Dormia pouco, mas feliz.

Um dia casou, estava enamorada, mas não apaixonada, nem sabia o que era o amor. Pensava que o amor se construía. Eu acredito que sim, quando o casal é cúmplice do mesmo desejo. O facto é que esse casamento não resultou, teve dois filhos, os seus diamantes.

Muito aturou e sofreu, muitas lágrimas verteu, mas deu a ambos boas ferramentas para se imporem no mundo do trabalho e sente-se orgulhosa, com o sucesso dos seus filhos.
Começou a conhecer-se melhor e a questionar-se qual seria o seu papel neste mundo, e o que pensou de certo modo tem vindo a concretizar-se.

Com esse estar assim se impôs no mundo do trabalho sempre bem sucedida. Numa das noites de insónia alguém lhe sussurrou, substitui as dores em alegria, em sorrisos e logo se apressou a mudar de atitude, rapidamente alcançou os seus objectivos.

Então veio a magia presa a um temporal aterrorizador, as árvores gemiam fustigadas pelo vento, levantou-se pegou numa caneta e papel e escreveu sobre o pânico que a assombrava e conseguiu superar o medo que a afrontava e assim o seu maior sonho começou…

Maria Lúcia Saraiva – 2020-03-27

Direitos de Autor reservados e protegidos nos termos da Lei 50/2004, de 24 de Agosto – Código do Autor

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Autora: Ísis Estevens

A escola primária de Barcarena (Em resultado da quarentena)

7 de Outubro de 1954, um luminoso dia de Outono. Saímos da minha casa em Leceia, para me estrear na escola.

Fomos por um «caminho de cabras», a estrada que ligava as duas povoações foi alcatroada nos idos de 1960, e entrámos numa belíssima moradia rosa com uma caravela de azulejos numa das paredes, um amplo edifício de três pisos, situado na hoje chamada Rua 7 de Junho e precisamente no nº. 7.

Subimos ao primeiro andar e ainda vejo a luz e sinto o cheiro a cera daquela belíssima sala. A grande Professora que foi a senhora D. Alice de Sousa Moreira recebeu-nos, docemente sorrindo. Com o número 240, iniciei a minha escolaridade.

A escola era, diariamente, a minha descoberta. Desde a poesia, à aritmética, à história e à (maldita) gramática. Sempre o amor daquela senhora, o convívio com meninas de todas as classes sociais, vindas da Ribeira Acima, Ribeira Abaixo, Valejas, Queluz de Baixo, Leceia e (naturalmente) Barcarena.

O início dos grandes convívios, do bulling (por ser a melhora aluna, passei para a 2ª. classe com vinte valores) e das grandes paixões, apesar de meninas para um lado (o primeiro andar) e meninos para outro (o rés-do-chão), com recreios também separados, o nosso numa espécie de cave.

Enriquecia diariamente. Da janela da minha sala, via uma velhíssima parede, a que chamávamos Poço do Pires, para aproximadamente 50 anos depois saber, graças ao José Luís Cardoso, que era ruína da aldeia pré-histórica mais antiga da Península Ibérica, o castro de Leceia.

Na escola primária de Barcarena obtive as maiores referencias, más e boas, que guiaram a minha vida pessoal e profissional.

Boas são a lembrança da senhora D. Alice, de um casal de professores, ele o Joaquim Pinho (?) e a mulher, uma regente escolar substituta da minha professora, que se encontrava doente, e já depois de concluída a 4ª. classe, quando da preparação do exame de admissão ao ensino secundário, duas belíssimas mulheres. Uma linda jovem, a Srª. D. Idalinda Tição dos Santos, professora dos meninos, que nos levava para a sua casa em Queluz de Cima, e a Srª. D. Joaquina, professora das meninas, vinda da Amadora e também uma grande profissional.

Retomo a inovadora figura do casal Pinho (?), porquanto a família acabou por (des)respeitar as normas docentes.  Lembro que o Professor, cerca de um mês depois do início do ano lectivo de 1956-1957, reconhecendo que o meu irmão então com 7 anos acabados de fazer, sabia de mais, passou-o de imediato, para a segunda classe. Depois, por que, segundo as suas conveniências, atendendo às necessidades da família mas desrespeitando as normas vigentes, misturava ambos os sexos na sua aula do rés- do- chão. Também por defender que as meninas deviam continuar os estudos após o ciclo primário e ainda por não fazer distinções de estatuto social. Cumprindo as regras de então, quando era preciso bater, batia (lembro-me das mãos negras do Miguel)  –  se quiserem tenho o escrito As mãos negras do Miguel – e tratava todos(as) pelo nome.

Lembro que havia um menino lindíssimo, loiro, de olhos azuis, com uma indumentária que o distinguia dos outros. Uma bata branca de bom tecido e bom corte e por baixo dela, talvez, outras roupagens do mesmo nível. Esse menino era o Cordes, o único, tratado pelo apelido.

Passaram-se anos, muitos, muitos anos, até que soube quem era o Cordes. Quem era o  Cordes? Quem era?

O Cordes, era tão só um neto do General Sinel de Cordes, dono da Quinta do Cordes, que hoje conhecemos como Quinta Nossa Senhora da Conceição, importante figura politica com ligações ao Estado Novo  e que, se a memória me não falha, tinha então em Barcarena uma rua com o seu nome, a hoje chamada Rua Pelner Duarte, um cidadão barcarenense anti-fascista morto no ano de 1942, em Timor.

Por que fui felicíssima na Escola Primária de Barcarena, comovo-me sem dificuldade quando a vejo. De entre as lembranças, evoco a festa do exame da terceira classe das crianças das localidades apontadas e lembro a riqueza da vida de muitos (as) que por lá passaram. Há porém uma incógnita que gostaria de resolver…!

Que está por trás daquela vivenda lindíssima, que foi a Escola Primária de Barcarena? A quem pertenceu, quem a pensou, por que mantém, pelo menos exteriormente, as características de sempre e por que foi afecta à educação, desrespeitando o modelo arquitectónico das escolas primárias de então? Quem me esclarece?

Isís Estevens

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Autor: Jorge Castro

Um dia na vida do Corona Vírus  – 17º dia de confinamento – Reflexões avulsas

São oito horas e dez minutos da manhã. Espreguiço-me na cama. Hoje até era capaz de ir dar um passeio pela praia de Carcavelos mas, como não tenho cão, não sei se posso passear com a minha gata. Mas receio que ela não esteja pelos ajustes, tão dada que é ao livre arbítrio. Além disso, na praia nem se deve passear o cão, mas enfim… Com a minha companheira presumo que não posso. Pelo menos, não está anunciado no Estado de Emergência meiguinho que nos calhou em sorte e, se não está, é melhor não tentar essa sorte.

Levanto-me para as rotinas matinais. Dirijo-me ao espelho da casa de banho e reconheço vagamente o tipo que está ali a olhar para mim, a quem cumprimento, com um esgar um pouco despenteado, confesso.

Abro, em rotina, as portadas da casa toda, confirmando que a minha companheira já se adiantou no pequeno-almoço, como tem vindo a ser hábito ultimamente, pois fico até tarde repartido entre a televisão e o computador, só reparando, então, que o dia está bonito. Ficar acordado até tarde é no que dá: levantar tarde e perder o amanhecer. Assim vai o desequilíbrio do meu mundo… Ainda por cima, fui informado de que dormir pouco fragiliza o sistema imunológico. 

O confinamento, entretanto, tem aspectos curiosos: temos tempo para pensar. Desde as mais sublimes altitudes até à mais comezinha reflexão. Da salvação do mundo até à limpeza do excremento do cão que um vizinho passeante deixou à minha porta, que a clausura tem as suas fugas e dádivas inopinadas.

Tomo o pequeno-almoço visitado, como habitualmente, pela passarada que se habituou a partilhá-lo connosco. Bastaram umas poucas sementes diárias e restos de pão rotinadamente colocados num comedouro improvisado para lhes comprar uma confiança relativa, mas muito aprazível.

Não devemos, no entanto, abusar deste subsídio, pois interessa que a passarada não se desabitue de colher o pão-deles-de-cada-dia, não vá dar-se o caso de lhes faltar, inopinadamente, o fornecedor e eles ficarem sem saber como se amanhar. E este tempo não está para dados adquiridos nem hábitos de calaceirice. E isto vale para o ser humano como para o pardal.

Há coisas a fazer, claro. Cortar a sebe, aparar a relva, retirar ervas daninhas, cortar e armazenar lenha obtida de móveis velhos, fazer pão, sei lá que mais… O que vou cumprindo, calma e apaziguadamente. E, outra vez, essas tarefas propiciam a reflexão constante que antes refiro. 

Dou por mim a matutar que, numa escassa quinzena, já fui informado de que devia usar luvas de protecção e de que não as devia usar; por outro lado, que devia usar máscara e, logo mais, que seria melhor não a usar; que a desinfecção dos pavimentos é crucial mas, as mais das vezes, é um esforço inútil…  

Recentemente, colhi até a informação de que usar barba era contraproducente. Presumo, entretanto, que esta situação se referirá prioritariamente à população masculina. Mas fico desconfortável, como é evidente. É que se, amanhã, vierem contradizer este ditame, vai levar-me uma data de tempo a recompor a pelagem.

Assisti a um frenético açambarcamento do papel higiénico como se todos padecessem de infernal diarreia e ao desaparecimento do pão fresco… que vem depois a aparecer, bolorento, nos caixotes do lixo. Façam açorda, pelo menos, ó alminhas aflitas!

O distanciamento ao meu semelhante (leia-se este semelhante na perspectiva de ser alguém tão atreito como eu a captar o malfadado vírus), tem vindo a aumentar. Começou por um discreto e comedido «distanciamento razoável» para o imperativo de um metro e a última versão já implica um mínimo de dois metros. Hoje, de manhã, a fila/bicha para o supermercado, sempre percursor, que frequento já atinge os cento e cinquenta metros… para uma dúzia mal contada de clientes em espera.

Como o ventinho tem estado fresco, talvez aconteça que aquela espera propicie, até, uns resfriadozitos para dar mais sabor à vida. Nada de preocupante, embora, e sempre ficamos com um entretimento doméstico complementar.

Tenho, entretanto, uma angústia que me acompanha nestes dias de clausura: por que não ir fazendo testes de detecção da Covid 19 a toda a população? Não há testes que cheguem? Pois constou-me que já soluções preconizadas por cientistas portugueses, vejam lá! E com possibilidade de produção ilimitada.

Mas o que mais me tem marcado é, sem margem para dúvidas, a incidência da maleita na população sénior, na qual me vou incluindo, valha a verdade.

Esta malévola discriminação só pode ter sido congeminada por algum pequeno deus menor e insidioso com tendência para a Economia, tipo Lagarde e outras abencerragens.. Mas o certo é que a avassaladora percentagem de óbitos recai, sem margem para dúvidas, nos escalões etários a partir dos setenta anos.

E isto, então, traz-nos para um campo em que nem a ironia, nem o sarcasmo, nem o bom humor têm lugar: os famigerados lares da terceira idade.

Num mundo que se está objectiva e institucionalmente nas tintas para os anciãos de cada sociedade, a recolha e resguardo dos cidadãos em fim de vida e, mormente, na chamada velhice desvalida, vai competindo aos lares. Instituições privadas, quase todos, sujeitos, portanto, às «regras de mercado», com pessoal de preparação e competências profissionais mais do que duvidosas em tantos e tantos casos que todos conhecemos.

Como poderá alguém manifestar surpresa por serem estes locais os coios onde prolifera a contaminação?

Com um mercado de trabalho canalha – que também (quase) todos conhecemos – chega um momento, na vida de cada família, em que os filhos não têm condições para acolher e tratar dos pais, por mais entes queridos que sejam. E não necessariamente por razões económicas directas, mas por razões de vida que – outra vez – todos conhecemos e os que não conhecem, se procurarem um pouco nas respectivas famílias, logo encontram e com múltiplas facetas. 

E isto traz-nos ao remate desta minha frágil e canhestra crónica:

Que este confinamento a que estamos obrigados, que fez surgir à luz do dia tantas e tão clamorosas carências de âmbito social, em todo o mundo, ainda que em certos países mais do que noutros por consabidas razões, que este confinamento, dizia, nos alerte para a necessidade de encarar o problema da chamada terceira idade com a dignidade que ele merece.

Que interiorizemos e obriguemos os respectivos governos a criar uma rede de cuidados a prestar aos anciãos tão relevante como o nosso Serviço Nacional de Saúde no tratamento das doenças e na manutenção da Saúde dos cidadãos.

Esta não é uma matéria que deva ou possa estar entregue a interesses privados. Malfadada a sociedade em que vivemos que se deixou resvalar para esta insensibilidade institucional, onde nem sequer se apura que se está a falar de cidadãos que, na sua esmagadora maioria, pagaram os seus impostos, taxas e taxinhas, e que, assim, ergueram a sociedade em que nos movemos.

Se, depois, algum afortunado quiser pagar do seu bolso uma estadia de rei, que o faça e que recorra a seguros e a lares principescos e tudo por aí fora. Mas, antes, o cidadão comum, o velho sem amparo, porventura sem família ou com família sem condições, sem amigos e que apenas convive com a sua solidão deverá ter o direito à dignidade que advém da sua própria cidadania.

Estão a ver para o que havia de me dar o confinamento?

Jorge Castro, em 28 de Março de 2020

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Autor: Fernando Lopes

A Cura da Cova do Vapor

A minha memória de infância leva-me, nestes dias de quase auto-reclusão, a recordar um episódio que sempre julguei associado à designada tosse convulsa, cujo nome científico é pertússis ou coqueluche. Ca raio de designação, que desconhecia até consultar a Wikipédia. Segundo a descrição, esta é uma doença bacteriana associada a crianças de tenra idade. Ora eu tenho na memória o que a seguir descrevo. Tal só pode significar que então já tinha mais alguns anitos.

Ora assim foi, lá por meados dos anos 50 do século passado. Nascido e criado em Caxias de Oeiras terei sido acometido por algum problema de saúde que preocupou os meus pais. Como era normal na época, uma família da classe média baixíssima, para não dizer pobre, tão comum no Portugal salazarento de então, recorria a conselhos de curiosos que, por vezes, eram também os tratamentos sugeridos pelos João Semana de então. Não esqueçamos que a tuberculose ainda grassava e, apesar da BCG estar a chegar, esta doença ainda requeria o “confinamento”, palavra tão em voga nos últimos tempos.

É num contexto de práticas de terapias alternativas, que recordo, com alguma imaginação infantil, a lembrança da minha primeira “grande” viagem além-Tejo na companhia do meu pai. Ainda eram os tempos em que a talassoterapia complementava, quando não substituía, a medicina oficial. Saímos da casa onde vivíamos, situada no bairro do Forte de Caxias, mesmo ao lado do “sinal”, estrutura acastelada, pintada de branco, integrada no sistema de sinalização da Barra do Tejo e que fora antes o Mirante, sítio altaneiro e privilegiado pela realeza quando veraneavam na Quinta Real de Caxias. 

Como dizia, lá fomos. Primeiro a pé, por caminhos de terra batida, depois pela Marginal, então vazia de trânsito, até à Cruz Quebrada. Aí, por ser uma alternativa mais económica ao comboio, apanhámos o carro elétrico. Ronceiro, a tilintar, passou pelo Dafundo, depois Algés e por fim Belém. Ali para os lados do Palácio da Presidência da República, descemos e procurámos a Estação Fluvial, obra característica do Estado Novo, que aproveitou os aterros anteriores que fizeram desaparecer o Real Cais de Belém Comprados os bilhetes, aguardámos o cacilheiro, que já se avistava, pachorrento e altivo, com a ré coberta por lona e, obviamente, sem janelas. Entrámos e procurámos um lugar de que pudesse desfrutar melhor da maresia iodada. Esse devia ser o remédio tão ansiado para cura da maleita. Desperto o apetite para o farnel, dele recordo as bananas, fruta então exótica e ausente da dieta da maioria dos portugueses.

O azul do céu, o ar puro e limpo, o cachão provocado pelo movimento da hélice e a brisa ligeira que entrava nos pulmões ainda fragilizados do paciente, acompanharam o nosso percurso até à Cova do Vapor. Ali chegados, um passadiço de madeira levou-nos até um enorme istmo de areia que, ao tempo, ainda acompanhava, ao longe, as “ilhas” do Bugio, que diziam ser ainda acessível na maré baixa.

Como a praia não era o destino, apesar de muito em voga, pouco nos devemos ter demorado. No regresso, ainda sentados à ré, ou à proa, talvez para continuar a aproveitar a aragem fresca provocada pela deslocação do cacilheiro. Como num filme, em que o barco e os meus olhos eram a câmara estática, observava as imagens que pareciam mover-se, deixando para trás a povoação de pescadores e, a meio do percurso, o casario e a fortaleza da Trafaria, em cuja praia se vislumbravam, às avessas, as “chatas” de pesca varadas no extenso areal.

Já com o Sol no seu zénite, aportámos a Belém e tomámos o caminho de volta, talvez de comboio ou de carro elétrico, não recordo bem. Certo é que devo ter ficado curado da maleita. Se foi da viagem e da maresia, ou porque tinha que ser, nunca saberei.

Fernando Lopes, no Alto do Lagoal, Caxias, aos 12 de Março de 2020.      

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