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Autora: Ana M. Patacho

DORMINDO COM O INIMIGO

Não sei se se lembram do filme “Dormindo com o Inimigo” *, com Julia Roberts em mais uma personagem extraordinária que nos leva ao mundo interior de uma mulher cujo marido exerce uma violência tão profunda sobre ela, que o terror é sentido pelo espectador como se a sua própria pele fosse a destinatária.

Julia Roberts é a mulher que consegue escapar do seu obsessivo marido que sobre ela exerce uma abusiva perseguição, louca e descontrolada, de prepotência conjugal, por entre as quatro paredes de uma casa magnífica, toda de vidro, transformada em recinto de tortura inimaginável.

Passa-se em Cabo Cod, mas poderia ser em qualquer parte. E em qualquer contexto.

Aqui a casa era de vidro situada num local privilegiado de uma paisagem à beira do mar. E a violência foi-se desenvolvendo com grande intensidade.

Aquela violência demolidora que está nos genes de alguns humanos e que só espera a ocasião propícia para se expandir e eclodir com estragos que podem, com frequência, levar à morte.

Viver em pandemia na distanciação, mais do que um clima imaginado por Ray Bradbury, é uma dura realidade para todos nós.

E durante a fase de confinamento obrigatório no estado de emergência, que impunha a todos ficarem em casa, quantas vezes em agregados familiares que já não traduziam boas convivências, tornou-se fatalmente num contexto propício a um desenvolvimento conflituoso, de uma violência demencial, que terá de ser olhada com novos olhos pela comunidade em geral.

O estado tem de estar alerta através dos mecanismos que foi desenvolvendo com mais ou menos acuidade, mas cumpre-nos a nós cidadãos estar atentos porque agora, mais do que nunca, mais próximos do que se passa quase paredes meias connosco. E de que sempre quisemos, num respeito exacerbado pelas liberdades alheias, nunca interferir.

Mãos limpas sim. Mas enquanto pudermos. Sem nos alhearmos de problemas muito graves que podem levar à morte lavando nós as mãos como Pilatos.

Agora as notícias são outras. Ou a falta delas no campo da violência doméstica.

Porque há menos queixas de vítimas que ao estarem confinadas em casa, com o agressor, se sentem com menos possibilidades de se queixarem de todas essas agressões.

E não será que o agressor também se sente mais à vontade e até mesmo impune porque reconhece o contexto que está a viver obrigatoriamente, podendo sentir-se imune a ponto de lhe tirar os limites ao que pode fazer?

Há que estarmos atentos, agora e sob qualquer contexto, à violência doméstica, seja sobre quem for, mulheres, crianças, idosos, mas igualmente homens.

Todos sem excepção poderão ser vítimas. Fenómeno de poder, levado a extremos de violência que, tenha os contornos que tiver, não poderá ser tolerado pelas sociedades em que se produzem transversalmente. E que a sensibilização a esta verdadeira desordem social seja sim, global.

Um filme americano de 1991 serviu-me para a memória me trazer confinada a esta quarentena assintomática de 2020.

Dormindo com o Inimigo” é um ícone de uma situação concreta entre um casal heterossexual. Mas configurou-me toda a imensidão de silêncios sobre situações de violência doméstica que, diariamente, a comunicação social traz para os canais de televisão e de rádio e até para a imprensa escrita.

Onde casos chocantes todos, embora uns ainda mais de que outros, como sejam por exemplo os de pais que podem causar a morte a filhos menores, infligindo-lhes torturas físicas através de maus-tratos inqualificáveis de que só os animais humanos são capazes.

Mas também esses se dão dormindo com o inimigo. A coabitar as quatro paredes de uma vulgar casa qualquer, e ainda que não de vidro, como a Julia Roberts no filme americano.

É que o que deveria ser, de modo natural, a salvaguarda da família que, tutelar na protecção dos seus mais frágeis e desprotegidos elementos, se transforma facilmente, e cada vez mais, em antros encurralados das mais diversas formas de violência doméstica.

Que não escolhe géneros e em que o silêncio mata.

2020, Ana M. Patacho,

Sassoeiros, 19 de Maio

*- “Dormindo com o Inimigo“ é um filme americano de 1991, de suspense psicológico, dirigido por Joseph Ruben. E baseado num romance de Nancy Price.

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Autora – Ana M. Patacho

CRESCER NUM NOVO PARADIGMA

Hoje tive de sair para ir até ao cimo da rua ao talho do sr. João. Melhor dizendo: a mercearia do sr. João durante a pandemia.

Claro que o que lá fui fazer foi ir buscar o pão alentejano já fatiado fininho. Hoje era mesmo só o pão que eu desejava com fúria canibalesca quando saí de casa.
Mas as luvas, a máscara, os sapatos que tenho guardados à porta, os óculos que agora nunca uso em casa mas que não esqueço pôr quando vou à rua nem que seja só para despejar o lixo nos contentores.
Moro em Cascais mas todo o lixo da minha rua pertence a Oeiras. E desta vez sem culpa do vírus.
O pior foi nos dias em que não se podia passar de um concelho para outro! Em que contentores para o lixo, vidrões, porta óleos e de pilhas, me pareciam sempre exércitos mal-amanhados de furgões sem préstimo para engolirem os detritos das ruas mais próximas.
Hoje não fui ao lixo. Não tinha em casa quase nenhum. Ontem saí para desaguá-lo todo nos contentores cinzentos e sem graça.
Mas as garrafas de vários tamanhos, panóplias de gostos muito particulares, e os boiões dos pikles que vão acabando, levarei noutro dia.
Deixei também as folhas A4, que me submergem já, a aguardar nova oportunidade. Agora o lema é outro: Não fazer tudo no mesmo dia.
Adiar coisas para novo dia sempre diferente no igual que comporta. E até o lixo se adequa a que assim seja. Há que fazer render o tempo do isolamento.
Só a pandemia, que é totalmente injusta nesta indesejada visita alargada ao mundo inteiro, pode verdadeiramente viajar, não precisando sequer dos aviões que estão parados; de comboios e barcos a circularem; ou de fronteiras terrestres abertas em livre circulação como é o espaço Schengen.
Estancando as migrações de seres humanos que, na rota de profecias bíblicas, buscam apenas melhores condições de vida.
Varrendo a eito o planeta Terra num frenesim louco e demencial, o vírus ceifa velhos e novos transversalmente, sem olhar a quem.
Deixando um rasto de dor e impotência a pairar por sobre os escombros à escala global.

*

Penso no conceito que diz que é preciso uma aldeia para criar uma criança.
E olho com apreensão para a reabertura das creches. Como vai ser com as crianças que os pais lá deixarem ficar diariamente?
Uma angústia pedagógica para quem os vai receber e desenvolver um trabalho de que verdadeiramente nada podem saber ainda e, na verdade, quais as implicações.
Crianças numa idade em que estão a dar os primeiros passos para a aprendizagem da vida, num ambiente que lhes é tão hostil, vão começar no dia 18 de Maio, já na próxima segunda-feira, a regressarem às creches. Sem proximidades (q.b.); sem que possam trazer de casa brinquedos para poderem partilhar; sem contactos físicos com os outros meninos ou quaisquer objectos para a troca.
Afinal sem possibilidade de sociabilização, objectivo principal que os leva através dos pais, a estarem ali para benefício de uma aprendizagem de vida a começar agora.
Partilhar e sociabilizar com outras crianças, norteiam a necessidade actual, que substitui a aldeia pela tribo infantil, de uma mesma creche, como ponto fulcral para a educação nesta idade.
E não esqueçamos que eles serão, em todo o mundo, os homens e mulheres que vão constituir as sociedades. E o mundo será o que eles forem.
E com um iniciar tão espartilhado de regras contra-natura e tão pouco desejáveis portanto, como lhes é adverso este novo paradigma, que começa já esta próxima segunda-feira de Maio.
A transformar conceitos de actuação, embora com as angústias reais que estão presentes, mas a que eles não podem fugir e de que futuramente serão as primeiras vítimas.
Ou o novo paradigma deseja precisamente isto? Uma sociedade robotizada, de seres sem emoções, frios e individualistas, controlados ordeiramente como roupa mandada limpar a seco nas lavandarias a troco de lhes tirarem quaisquer resquícios de nódoas indesejáveis, como sejam pensamentos e, muito menos, acções de partilha ou de interajuda.
Seres obedecendo apenas a correias de execução à distância.
Pobres crianças com tamanho peso às costas. Pobre mundo que se nos apresenta com este novo paradigma.

2020, Ana M. Patacho, Sassoeiros, 16 de Maio

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Autora: Ana Maria Patacho

DOIS LADOS DA MESMA MOEDA

Máscaras só as venezianas. Misteriosas. Coloridas. Frivolidades assintomáticas da beleza pela beleza.

Num desafio crescente da loucura feita da inconsciência salpicada pela acqua alta. Com a elegância e o charme desconhecido com que nos cruzam pelos canais ou nos arrastam apetecíveis pelas ruas e vielas de Veneza.
Agora também existe o desconhecido. Mas que nada nos oferece de bom. E só nos pode angustiar ao impor um tipo de vida onde o medo leva à impotência, por mais que sejamos pragmáticos, de uma solução adiada num sine die de que não possuímos a data final.
As máscaras de recorte requintado, mesmo quando retratam as vilanias dos cortesãos venezianos de uma república que se deixou sucumbir nas vaidades de rainha do Adriático, são as únicas que deixei entrar no meu dia-a-dia.
Até agora guarnecem a chaminé da lareira, onde durante os meses mais frios do inverno deixo que o crepitar dos toros de azinho me aqueçam o corpo e a alma.
Tenho duas que trouxe de Veneza no verão de 2009. Uma, é uma máscara feminina, de roxos e palhetados dourados com elegantes plumas multicores oscilantes. A outra, a de algum sedutor louro e de olhos azuis, que andasse perdido num esconde-esconde escaldante através da Laguna.
Turbilhão sem fim de gôndolas que se cruzam no Grand Canal, com Santa Maria Maior a crescer à direita, frente já aos Leões de S. Marcos.
Tudo é misterioso e luxuriante em Veneza. E as máscaras também. Mas a miséria tanto espreita nos abandonados degraus de alguma igreja barroca, como solfeja uma miséria cosmopolita no olhar vítreo que se antevê por detrás da máscara que ostenta uma riqueza afinal só aparente.
Mas não é todo o mundo actual constituído por civilizações ostentatórias de um caminhar pelo falso e ilusório?
Mais ou menos global, o que estávamos a viver levar-nos-ia inevitavelmente ao abismo.
Que a pandemia no seu confinamento forçado, ao menos nos leve a reconhecer que terão de ser feitas mudanças radicais e que o novo paradigma traga maior consciência a cada um. Para podermos avaliar o que o “ficar isolado em casa” por tempo que ainda não sabemos o quanto será para o planeta azul poder refazer-se melhorando a qualidade das suas condições de vida e ser considerado de igual para igual, parceiro das sociedades humanas.

*

E agora tudo está deserto. E a acqua alta, embora não no seu tempo ainda, irá retornar. E poderá crescer alagando as esplanadas que não estarão lá para serem por ela inundadas. Setembro vem longe. Mas chegará. E a dúvida leva-nos à interrogação: “Como vai ser?”
Algures a meio, entre o Carnaval e o final do verão, imagina-se tudo o que não sabemos como vai ser. Porque máscaras só as do confinamento. E mais ou menos seguras consoante o material e a maneira como a confecção for feita.
Mas o medo estará sempre lá. Ao usá-las ele está presente e eu assumo-o. Mas há que habitar a ideia de que é um novo desafio a cada um de nós. A que temos de responder Presente. Para bem de todos. Para bem de nós.
E porque a imaginação pode ajudar-nos a ultrapassar crises, eu volto os olhos para as belas máscaras venezianas que guardo na memória, e como se fosse colocar uma porque tenho de ir à rua, ao supermercado ou à farmácia, digo: “Tudo vai passar”. Só mudou o paradigma!

2020, Ana M. Patacho – Sassoeiros, 8 de Maio

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Autora: Sibila Aguiar

O MEU POEMA

O meu poema não nasceu ainda…
O meu poema esta na voz das mamanas de macala,
Que gritam esganiçadas e derretidas de calor,
O meu poema está nas palmeiras à beira mar,
E no silvo das cobras cuspideiras
Que rastejam na terra escarlate…
O meu poema, o meu poema…
Está no estender das mãos
Dos mendigos do cais,
Cobertos de feridas e rodeados de moscas…
O meu poema, está nos batuques,
E nos tambores que transmitem mensagens ao luar…
O meu poema, o meu poema…
Não nasceu ainda…
Está no canto das aves selvagens
Cujos nomes são ainda desconhecidos…
Esta no pólen das flores tropicais…
E anda à roda nas voltas da vida…
O meu poema… O meu poema,
Está no apitar dos navios que partem…
No palpitar dos corações…
E no gemer do quissange misterioso e quente do luar africano…
Um dia, o meu poema será cinza…
O meu poema misturar-se-á com a terra,
E dele brotarão as flores mais belas,
E andará em todas as bocas…
O meu poema nascerá então!

  • Sibila Aguiar

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Autor: Jorge Castro

Nós, os velhos

Para princípio de conversa, o conceito é relativo. Se perguntarem a um miúdo de seis anos, ele considera os pais de trinta, velhos. Aos nossos vinte, qualquer indivíduo na casa dos cinquenta nos parecia mais do que entradote… e por aí fora.

Estão estafadas as conversas que vão buscar a longevidade eternamente juvenil e activíssima de um Fernando Pessa em contraponto a qualquer molengas jovem mas eminentemente sorna.

Mas, hoje, o tema volta à ribalta, com contornos mais do que dúbios, por força da contaminação do vírus e da «população de risco», referindo-se toda a gente aos velhos, como uma espécie civilizacional à parte.

Velhos que constituem, no Portugal que temos, cerca de um quarto da população. Sem querer armar em antropólogo, sociólogo, estatístico ou outro qualquer especialista – que nem sou – vejo, entretanto, com apreensão a deriva de alguns opinativos que partem do factor idade para o associarem à inutilidade ou ao «peso» (leia-se fardo) social que representam.

E, aqui, é que os néscios, os apressados (que também são néscios), os direitolas jovens (que, por sua vez, são néscios apressados) e outras camadas pouco higiénicas da nossa sociedade mostram clamorosamente que as suas caixinhas cranianas, quiçá por terem desenvolvido demasiada massa óssea, comportam poucos neurónios e, ainda para mais, mal articulados.

Vejamos:

– para além do imprescindível contributo dos velhos na sustentação do agregado familiar, nos dias que vivemos, que incide sobre o apoio, anónimo e clandestino quase, aos netos e aos filhos, seja directo, seja indirecto… e quantas vezes através da «subsidiação a fundo perdido»;

– para além do seu contributo para a sustentação das incontáveis acções culturais, quase anónimas mas sempre presentes, que atravessam diariamente todo o País e que contam com a organização e participação maioritária de velhos – que se desunham, ingloriamente, as mais das vezes, para contarem com a participação de gerações mais novas nessas iniciativas;

– para além de serem, em larguíssima maioria, os velhos a darem um passo em frente em tudo quanto seja voluntariado hospitalar, em particular, mas social, em geral… geralmente a custo zero, ainda que muito boa gente activa disso beneficie;

– para além de muitas outras coisas, porventura de somenos, ocorreu-me, nestes tempos propícios à reflexão, fazer um breve exercício, recorrendo aos dados fornecidos pelo Instituto Nacional de Estatística, depois de ter ouvido uma personagem ministerial referir que cerca de metade dos proventos realizados no turismo – que, pelos vistos, já representa 17% do PIB, o que não é despiciendo – provém do turismo interno. Dos residentes em Portugal, portanto.

Ora, basta uma levíssima agitação das meninges, olhando para os dados de 2018 (os gerais mais recentes, que qualquer um pode consultar) para rapidamente se concluir que esse turismo interno é constituído, em cerca de um quarto do seu total, pela população no escalão etário entre os 65 anos e o infinito. Se, entretanto, lhes juntarmos a população entre os 45 e os 64 anos de idade – onde já se contam muitos pré-reformados, reformados e pensionistas – atinge-se um valor de 50%.

Por si só, pois, ou em cúmulo com o acréscimo do grupo anterior, os velhos deste País representam uma parte fundamental e imprescindível no movimento do turismo nacional e, nesse contexto – já não referindo os outros contextos –, mantêm-se como uma parte muito significativa da população «activa» que sustenta a máquina da economia em movimento…   

Já para não falar do IRS que o Estado Português continua a cobrar a reformados e pensionistas, o que sempre me pareceu uma aberração inqualificável mas, enfim… isso ficará para outra croniqueta.

Assim sendo, animem-se, pois, os velhos! Animemo-nos! Estão em nós os saberes antigos e a experiência de uma vida vivida, mas estamos, também, perseverando na construção dos pilares do futuro.

Quanto ao mais, já os meus avós diziam que vozes de burro não chegam aos céus.

– Jorge Castro

08 de Maio de 2020          

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