EMACO

Espaço e Memória – Associação Cultural de Oeiras


Autora: Ana M. Patacho

QUINQUAGÉSIMO PRIMEIRO DIA

E as notícias ouvem-se; e as notícias vêm-se. E os sítios passam frente aos nossos olhos todos os dias, e as imagens desfolham-se na nossa memória.

Caindo como tordos pelas janelas que vamos rasgando nestes cinquenta e um dias em que um emaranhado dilúvio de informações se converteu numa arca encerrada, atirada ao acaso por um deus desconhecido, que obriga um planeta inteiro a uma acção global perversa, como nunca antes sentida e, muito menos, imaginada.

Je vous parle d’un temps
que les moins de vingt ans
ne peuvent pas connaître
Montmartre en ce temps-là
accrochait ses lilas
jusque sous nos fenêtres
e, se o humilde quarto mobiliado
que nos servia de ninho
não parecia valer muito
foi lá que a gente se conheceu.
La bohème, la bohème
Ça voulait dire on est heureux
La bohème, la bohème.

Mas há dias que custam mais. E há também dias em que deixamos deslizar a memória para fora de nós. E então viajamos como se numa máquina de tempo estivéssemos encaixados. Sozinhos. Sem interlocutor com quem falar senão nós próprios. O silêncio a preencher-nos por inteiro. A carregar o fardo connosco. Ou o silêncio como alter ego único que nos resta?

E eis que Montmartre desce sobre nós na voz quente de Aznavour, com quem curiosamente me cruzei logo a atravessar a porta do aeroporto Le Bourget, na minha primeira chegada a Paris, sozinha, um mês antes do Maio de 68. Foi um bom presságio para a minha estadia.

Aquele cantor arménio pequenino, que nos anos sessenta, simbolizou para largas gerações do mundo ocidental, as minorias de que pouco sabíamos nessa altura. O cantor da voz romântica, mas não só. Marca de toda uma geração gizada pelos ideais de liberdade que vinham da Revolução Francesa, marcantes na Língua e Cultura francófonas.

Em tempos de gerações ainda alheias à corrente anglo-saxónica que os Beatles introduziram na segunda metade do século XX.

La bohème, la bohème. Ça voulait dire on est heureux

Montmartre, onde marquei hotel da última vez que estive em Paris, em 2009, e, tal como da primeira vez também na Páscoa.

Só que dessa vez não havia nas ruas do Quartier Latin pedras arrancadas, nem ouvi palavrões em português de operários que trabalhavam sem poderem saber que ouvidos compatriotas por ali estivessem.

Mas também não me cruzei à chegada, com Aznavour, a atravessarmos ao mesmo tempo, em sentidos opostos, a porta do aeroporto que também não foi o mesmo.

Não voltei a Montmartre porque não voltei a Paris, mas a pandemia trouxe-me as imagens televisivas de uma Montmartre deserta que me levou a estar às voltas com a memória. Nesse dia, o quinquagésimo primeiro do confinamento, La Bohème preencheu-me por completo e a Liberdade voltou a estar inteira na memória.
*
E agora, nos dias cinzentos do isolamento a que estamos submetidos, resta-nos cultivar a liberdade interior. Para dialogar com ela dentro de nós e a podermos manter.

Só a essa nos podemos agarrar. A liberdade de pensamento, a liberdade de obedecer a este confinamento que nos deixa privados de uma coisa tão simples como a actividade do corpo. Que é bom para uma mente sã e tão necessária é aos que foram nele apanhados mais velhos só porque nasceram há mais anos.

Ça voulait dire Somos felizes.


2020, Ana M. Patacho

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Autor: Jorge Castro

CONFINADÍSSIMOS DE PASMO NOS MANTEMOS

confinadíssimos de pasmo nos mantemos
em clausuras que ninguém suspeitaria
num amargor de vida que sustemos
sem sabermos quando nasce um novo dia

pó seremos – cinza breve – só memória
mas enquanto cá vivermos haveremos
de cruzar quantos caminhos da história
sejam feitos pelos passos que nós dermos

porque o mundo é nosso – de nós todos
e o ar que respiramos nossa herança
preenchendo os pulmões com ar a rodos
peregrinos a caminho da esperança

não é parco este mundo mas finito
e todos nós pouco mais que um marinheiro
solitário a caminho do infinito
mas sabendo ter o Sol por companheiro

e no fim da viagem percorrida
acostando ao seu porto de destino
ter em si a noção certa e vivida
de ter feito da sua vida quase um hino

de fulgores – de incertezas – de amores
de ser da lei maior da vida partidário
nessa busca permanente de mil cores
de um viver perenemente solidário.

Jorge Castro -em 04 de Maio de 2020

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Autora: Ana Maria Patacho

SOBREVIVER

A jangada já estava no mar. Em pleno oceano zangado corria certeira nas ondas alteradas. As vagas tão depressa a faziam transportar para o cume dos infernos elevando-a na torre de vigia ao mais alto dos impensáveis como antecipava mais depressa ainda atirá-la para a caverna funda em que o novo movimento de terror feito os aprisionava.

Durante a minha infância houve uma brincadeira recorrente que acontecia principalmente aos sábados de manhã.

Em cima do divã da sala de estar eram derramadas as caixas de brinquedos conjuntos de três irmãos.

E tudo era chamado a participar independente do estado em que se encontrasse: novo, velho ou assim-assim.

Bolas, bonecas, cavalos mancos e respectivos guerreiros com elmos mas sem viseiras salientes confraternizavam com chaveninhas e colheres e garfos já de plástico, lado a lado com tachos e panelas de lata colorida, mas também com automóveis descapotáveis de cores espampanantes, tambores de vários tamanhos, apetecíveis legumes plastificados e até ovos estrelados tão bem imitados que só faltava um pão gostoso para os degustar.

No divã da sala de estar, uma varanda quase quadrada, envidraçada com pequenos rectângulos que deixavam entrar o sol a eito, eu brinquei anos a fio com os meus dois irmãos. O Salvador, mais velho do que eu um ano, e a Marisol, miúda ainda criança ao pé de nós, com caracóis e nariz arrebitado que viera ao mundo para nos infernizar o juízo, ao Salvador e a mim.

A brincadeira organizava-se como se da arca de Noé se tratasse e o dilúvio estivesse prestes a acontecer. Eu simbolizava intuitivamente a acção bíblica do Velho Testamento, que se centrava na necessidade interior que, frente às interrogações que um cataclismo de que nem sequer sabíamos ainda o nome, nos prende, nos reduz a uma insignificância diluída num todo global a que temos de sobreviver.

Os dois irmãos mais velhos compreendiam, ainda que vagamente, porque tinham de voltar recorrentemente a brincar às jangadas. A terceira, Marisol, era muito pequena, e embora não anjo louro de inocência, no miolo de folhos e saiotes encarnados com bolinhas brancas onde emergiam os estranhos caracóis do cabelo cortado curto, essa, era diligente a tomar a brincadeira a sério e tornava-se um bom grumete a cumprir ordens.

Conservar, a bordo da jangada, no sobe e desce descomunal da pandemia desconhecida, era o lema que acolhia os três irmãos ainda que de maneiras diferentes. Talvez por ser rapaz o Salvador preferiria jogar à bola com os amigos rapazes, o que evidentemente tinha de guardar para quando pudesse estar com eles.

A casa era num prédio antigo de uma rua onde passavam já muitos automóveis e até com bastante frequência grandes camionetas verdes de mudanças. E nós não tínhamos quintal. Quanto ao mais próximo só podíamos avistá-lo à distância do terceiro andar onde morávamos, para o rés-do-chão habitado por uma vizinha velhota que vivia sozinha e não falava com ninguém.

E assim era a sala de estar o que nos restava para sobreviver quando os nossos pais ao sábado de manhã ainda estavam a dormir.

No silêncio gastava-se a transumância da turbulência que atirava a jangada como casca de nós que não iria conseguir sobreviver.

O silêncio jogava-se naquele instante enquanto os vagalhões provocados pela tempestade não esperada varriam da jangada os primeiros destroços de cavalos mancos e cabrinhas desvalidas sem que algum dos três irmãos lhes conseguisse valer.

Eram as primeiras vítimas de um desígnio alheio e insondável, frente às interrogações que cresciam variadas nas cabeças dos dois irmãos mais velhos, o Salvador e a Ana Catarina. Era a primeira vaga de uma procela que varria o convés atirando borda fora bonecos e animais, objectos e pessoas indiscriminadamente.

E tudo acabava à hora do almoço para ser recomeçado na próxima brincadeira que pudessem fazer juntos naquele divã, onde a jangada da sobrevivência esperava por eles para novo combate à pandemia.

Ana Catarina e Salvador precisavam de proteger uma força mental que os levava à procura daquela ideia de jangada e à necessidade intuitiva que sentiam ao fazê-lo, somavam-se mais perguntas que ficavam suspensas, sem respostas, mas permanecendo com uma grande inquietude dentro deles.

Interiorizada sem grande consciência, mas com a determinação de quem tem de obedecer a alguma ordem superior desconhecida para enfrentar novos paradigmas.

E fosse o que fosse, mesmo o mais aterrorizador que viesse a acontecer, eles tinham de sobreviver.

No caos e na ordem, cruzadas todas as variáveis quase infinitas. Na angústia como mesmo no pânico, a pandemia iria continuar. Só eles tinham de permanecer na salvaguarda da mente e de uma consciência plena do sentido da vida.

Mas será que vou conseguir levar até ao fim tal propósito? O paradigma tinha mudado. Mas seria que eu vou querer viver assim, sobrevivente de mim mesmo?

Eu sabia que o livre arbítrio me dava o direito e a legitimidade ética para optar. A vida mudara radicalmente depois do 11 de Setembro em 2001. Os valores volatilizaram-se gradualmente. A Natureza transformou-se sem retorno, exigindo com inteira justiça a reparação de tudo quanto a ganância dos homens a violentou.

Para todos o desafio é aterrorizador. Enquanto isso, o instinto mais forte é sobreviver na pandemia.

Mas será que sei e quero viver paredes meias com o medo, neste contexto que vai ser a normalidade daqui para o futuro?

Para os meus amigos,
para todos os que estão
também confinados.
2020, Ana Maria Patacho,
Sassoeiros, 29 de Abril

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Nota explicativa – Eduardo Martins faz-nos, em três capítulos, um relato «saboroso» do seu recurso a uma unidade hospitalar de Cascais, na sequência de um episódio de saúde…

Autor: Eduardo Martins

A MINHA IDA À URGÊNCIA DO HOSPITAL DE CASCAIS, NO DIA 20 DE ABRIL DA ERA DO CORONAVIRUS – PARTE 1

Tudo começou uns dias mais cedo. Tenho-me confinado bastante em casa,

Em parte porque não me importo de estar por cá, fazendo coisas altamente criativas, como ler alguns livros e alguns e-mails, e enviar alguns, ou ver “posts” do “Facebook”, cada um mais… “criativo” do que os outros, a fazer jogos de computador, ou a ver telenovelas da SIC, ou os vários episódios atrasados do “Comissário Montalbano”, que me deixam voltar a ouvir, e a tentar entender o que é dito naquela língua tão musical, de que ultimamente só se ouvem as desgraças do “Covid19” ocorridas em Itália…

Claro que por causa disto tudo, não tenho praticado muito exercício físico, o que muito irrita a minha “sócia confinante”, que até confessa já gostar de ir ao supermercado, para os abastecimentos, devidamente ataviada, só para sair de casa…

Desde há uns três ou quatro dias, ia-me sentindo por vezes nuns estados gripais, ligeiramente febris, e com o corpo todo partido. Tomei uns “Paracetamol”, e a coisa lá se foi aguentando…  

Ontem tive de ir a casa da minha irmã, que se tem mantido fechada desde que começou a quarentena. Eu e o meu irmão, únicos herdeiros da nossa irmã, estamos a tratar da venda da dita casa. Uma das coisas que é necessária para isso, é uma “Certificação Energética”, e já tinha ficado combinada a visita do Perito que a elabora, às 15 horas. Eu e o meu irmão lá estávamos devidamente “mascarados”…

Voltei para casa, custou-me a subir a escada, cheguei ao segundo andar a respirar com dificuldade, eventualmente por ainda ter a máscara, mas também porque cada vez que inspirava com mais força, me dava uma dor que me parecia muscular do lado esquerdo, abaixo das costelas.

Também me sentia um bocado enjoado, aliás ultimamente tenho andado com “halitose”, o que muito incomoda a Ana, como se compreende, e que eu também sinto, por ter a boca muito seca, e andar sempre a beber água…

Contei destas minhas dores à Ana, e ela confessou que quando me viu chegar, branco, e a respirar com dificuldade, pensou que eu ia ter outro enfarte, 4 Anos, 3 Meses e 9 Dias depois de ter dado entrada pela primeira vez na Urgência do Hospital de Cascais, com um Enfarte…

Considerámos que o melhor era telefonar para o SMS24.

Muni-me do meu Cartão de Cidadão, pus o telemóvel em “alta voz”, e liguei para o “808242424”… Fui rapidamente atendido, sendo debitada automaticamente a lista das opções possíveis, tendo eu escolhido como  mais adequada, a opção “2”.

Uma senhora atendeu-me quase imediatamente, tratámos da minha identificação, da autorização para ser gravado o telefonema, e da descrição do que me queixava, e passou-me para um enfermeiro, que aprofundou o diagnóstico. Dada a minha idade, e pertencendo eu a um “Grupo de Risco” e a situação pandémica em que todos vivemos, independentemente dos outros sintomas que relatei, aconselhou que me  dirigisse a um “Centro de Saúde” para fazer o “Teste CoronaVirus”.

Aqui na minha área de residência, o local aconselhado era o “Hospital António José de Almeida” mais conhecido como “Hospital de Cascais”   

A MINHA IDA À URGÊNCIA DO HOSPITAL DE CASCAIS, NO DIA 20 DE ABRIL DA ERA DO CORONAVIRUS – PARTE 2…

Como tinha relatado ontem, o enfermeiro que me atendeu no SNS24, aconselhou que me  dirigisse a um “Centro de Saúde” para fazer o “Teste CoronaVirus”, porque dada a minha idade, e os meus anteriores episódios cardíacos, eu pertenço a um “Grupo de Risco” na situação pandémica em que todos vivemos, independentemente dos outros sintomas que lhe relatei.

Aqui na minha área de residência, o local aconselhado era o “Hospital António José de Almeida” mais conhecido como “Hospital de Cascais”, e o enfermeiro disse-me que “já me tinha sinalizado” para o dito hospital, e que me devia dirigir lá e procurar a sinalização “COVID19”. Perguntei se chamava uma ambulância, ou se podia ir no carro da minha mulher. Ele disse que podia ir com a minha mulher, mas que ela tinha de ficar no carro… e que eu devia levar máscara…

Lá fomos. Na zona das Urgências, que visitara pela última vez no dia 21 de Dezembro do ano passado, quando a minha irmã fora internada, havia muito menos movimento que dessa vez. Cá fora,  uma senhora a telefonar, outra a fumar, e um motorista de uma das duas ambulâncias que estavam estacionadas de portas abertas, que me apontou o local de entrada, que de facto não estava sinalizado, que eu visse, com a indicação “COVID19”.

Entrei, o segurança mascarado disse para tirar uma senha da máquina, mas não havia mais ninguém e fui logo chamado a um “guichê”. Disse que vinha sinalizado do SNS24, o funcionário confirmou, disse para ir para a Sala de Espera, e esperar junto ao gabinete 2, até ser atendido. Estava uma utente junto à porta entreaberta do referido gabinete, e eu guardei a distância de segurança. Eu já conhecia aquela Sala de Espera. A última vez que lá estivera foi no tal dia em que a minha irmã tinha sido internada, e nessa altura havia muito mais gente. Agora as filas de cadeiras estavam mais afastadas, em cada duas cadeiras seguidas havia letreiros “COVID19”, para que as pessoas não se sentassem nelas para não ficarem tão juntas. Mas ao todo, sentadas, estavam duas pessoas, bem afastadas uma da outra.

Uma das coisas de que me lembrava da última vez que aqui estivera, e que tinham grande procura, eram as máquinas distribuidoras de café e de outras bebidas, e as de produtos alimentares por vezes não os mais adequados a uma alimentação saudável, sobretudo em ambiente hospitalar…As máquinas agora não estavam lá.

A utente que estava à porta entreaberta do gabinete 2 saiu, e eu avancei e espreitei, e  uma senhora que lá estava sentada a uma secretária mandou-me entrar e sentar. Estava devidamente equipada com viseira, máscara, uma touca e uma bata plástica verde por cima de uma farda também plástica verde, luvas azuis e penso que também umas proteções dos sapatos em plástico azul, embora não os tenha visto, mas pelo menos era esse o “Equipamento Standard” de todo o pessoal que passei a ver a partir de então naquela zona da Urgência.

Fez-me a triagem, identificou-me, e colocou-me uma pulseira verde, com um código de barras, uns números, o meu nome, data de nascimento, sexo, data e a hora de entrada – 18:20. Depois mandou-me seguir para uma sala de espera que eu também já conhecia, porque era um dos sítios onde a minha irmã também permanecera no dia 21 de Dezembro do ano passado, e onde eu e o meu irmão a íamos espreitar de vez em quando.

Agora também tinha muito menos cadeiras, sem nenhum letreiro “COVID19”, e duas camas hospitalares com pessoas deitadas. Sentadas pelas cadeiras devidamente espaçadas, estavam uma dez pessoas mascaradas. Telefonei então à Ana, a fazer o primeiro “Relatório de Progresso”, e depois resolvi procurar no “Google” o significado das “cores das pulseiras nas urgências”, e fiquei a saber que é o “Código de Manchester”, que indica, no meu caso, e no da maioria dos outros presentes, que a Verde  é “Sem risco de morte imediato. Somente será atendido após todos os pacientes classificados como VERMELHO E AMARELO”. Fiquei muito mais tranquilo… Depois reparei que pelo menos os doentes das camas tinham pulseiras amarelas…

Dai a um bocado, uma pessoa com o “Equipamento Standard”, apareceu à porta, chamou pelo meu nome, eu levantei-me, ele viu-me e fez sinal para me sentar de novo.

Entretanto outras duas pessoas também com o “Equipamento Standard”, vieram junto das camas, e deram umas “bombadas” de oxigénio nos acamados, que à vez, foram levados por aquelas pessoas, para outros lados, com garrafas de oxigénio penduradas das camas.

Depois a mesma pessoa que anteriormente me chamara, veio à entrada da sala, chamou o meu nome e pediu para a acompanhar, corredor fora, até a um gabinete, com duas secretárias e as respectivas cadeiras, uma “marquesa”, e duas cadeiras bem afastadas das secretárias, numa das quais me mandou sentar.    Parti do princípio, que este devia ser “Médico”.

A MINHA IDA À URGÊNCIA DO HOSPITAL DE CASCAIS, NO DIA 20 DE ABRIL DA ERA DO CORONAVIRUS – PARTE 3

Mas aquela pessoa que me tinha chamado, devia ser “Médico”…

Foi assim que terminei a Parte 2 da história da minha ida à Urgência do Hospital de Cascais…

E devia ser “Médico” e não “Médica”, pelo tom de voz, já que do corpo, com aquela bata plástica verde largueirona, presa atrás com banda adesiva, não se conseguia perceber mais nada senão uns olhos, por trás duns óculos, por trás duma viseira…

Fez-me uma data de perguntas sobre a minha história clínica, os meus problemas cardíacos, a medicação que tomava, e sobre a razão que me levara até ali desta vez. Foi tomando nota, levou o carrinho que tem o termómetro, o aparelho de medir a tensão arterial e o nível de oxigénio para o pé de mim, fez as respectivas medições, não tinha febre no ouvido, o oxigénio estava bom no dedo indicador da mão direita, e a tensão arterial no braço direito estava a 17 -10… Até repetiu outra vez, e continuou alta… eu disse-lhe que em casa habitualmente anda nos 13 – 8…

Escreveu mais umas coisas no computador, mandou-me ir de novo para a sala de espera, e que me iam fazer uns exames.

Fiz o segundo “Relatório de Progresso” à Ana, que continuava confinada no automóvel…

Entretanto iam passando pela sala de espera, camas hospitalares, com pessoas mascaradas e com garrafas de oxigénio atrás, empurradas por pessoas com o “Equipamento Standard”, presumo eu que destas vezes eram “Auxiliares”. e também algumas macas empurradas por bombeiros com máscara e viseira.

Passado algum tempo, não posso precisar quanto, vieram chamar-me para ir à “Imagiologia” fazer um “Raio X”. Fui até meio do corredor acompanhado por  um “Auxiliar”, que aí me entregou ao “Auxiliar” que vinha da “Imagiologia” e trazia um doente numa cama hospitalar. Foi feita uma espécie de “troca de prisioneiros”…

Depois de fazer vários “Raio X” ao tórax, sobretudo ao lado esquerdo, abaixo das costelas onde me doía mais, fui acompanhado até meio do corredor pelo “Auxiliar”, e aí ele perguntou-me se eu sabia ir até à sala de espera… Eu respondi que sim, e ele deixou-me ir…

Fiz novo “Relatório de Progresso” à Ana, que me comunicou ter feito vários telefonemas a familiares e pessoas amigas a contar-lhes onde se encontrava confinada, e por que motivo…

Entretanto eram quase sete e meia da tarde, veio uma “Auxiliar” à sala de espera, perguntar se alguém queria jantar… eu disse que ainda não me apetecia, e perguntei se ainda iria demorar muito até ficar despachado, o que ela disse desconhecer… Das dez pessoas que ali estavam, três quiseram jantar, a “Auxiliar” foi trazendo os tabuleiros, elas foram comendo, umas mais, outras menos, mas sempre fazendo críticas à qualidade do repasto… 

Novo “Relatório de Progresso” para a Ana, com o tema alimentar… e ela que já estava ali há um ror de tempo sem nada para comer, nem onde o ir buscar…

Às tantas, uma “Enfermeira”  veio chamar-me para ir fazer análises, e mandou-me sentar num dos dois sofás que havia num recanto à esquerda de quem vinha da sala de espera. Nesta sala, do lado direito, havia umas dez camas, todas ocupadas com mascarados. No meio da sala, uma quantidade de mesas com computadores e pessoas com “Equipamento Standard” em frente deles.

A “Enfermeira” que me tinha chamado, puxou para o pé de mim o carrinho  com o material, e disse-me, com uma voz muito jovem, que me ia fazer umas análises ao sangue, e ministrar alguns medicamentos, e para isso ia pôr-me um cateter nas costas da mão direita, para tirar o sangue e também dar alguns remédios por aí, mas também me ia dar uma injecção na nádega… Além disso, ia fazer a zaragatoa para ver se eu tinha o vírus.

Primeiro tirou pelo cateter o sangue para as análises, depois ligou um saco com “Nolotil”, e não sei se com “Relmus” , analgésicos e relaxantes.  A injecção  foi de “Estreptomicina”, talvez para aliviar uma eventual pneumonia…

Entretanto veio sentar-se no outro sofá um dos utentes da sala de espera, que pelas conversas que eu ia ouvindo, tinha quase um doutoramento em doenças de todo o género, com altíssima permanência em urgências hospitalares… Enfiaram-me a zaragatoa na boca, com a língua de fora,  e não me custou muito. Custou-me bastante mais quando me enfiaram as zaragatoas nas narinas… parece que elas chegaram até aos pulmões…

A “Enfermeira” perguntou se me tinha custado, e eu respondi que deve haver coisas piores, e o vizinho meteu-se na conversa, perguntando se eu alguma vez tinha feito alguma biopsia… eu respondi que não… ele, entretanto saiu, não sei se por não gostar da resposta, ou por já estar despachado…

Perguntei à “Enfermeira”, como era agora o procedimento do teste do Corona Vírus, e ela esclareceu-me que seguia para a “Plataforma” para análise,  e depois o resultado era enviado para o meu “Centro de Saúde”, e me comunicavam o resultado pelo telefone…

Mandaram-me para a sala de espera, a empurrar a torre onde estava pendurado o saco do medicamento a escorrer para o cateter, até parar de pingar.

Novo “Relatório de Progresso”, com algumas dificuldades de manuseamento do telemóvel devido ao cateter e ao tubo, mas lá consegui…

Quando deixou de pingar o líquido, fui entregar o material à sala ao lado, à “Enfermeira”, e voltei para a sala de espera. 

À porta que dava para o corredor, surgiu uma pessoa com o “Equipamento Standard” que chamou o meu nome, e me mandou segui-la. Fomos até ao fim do corredor e entrámos no mesmo gabinete onde o primeiro “Médico” me tinha atendido. Mandou-me sentar na marquesa, sentou-se à secretária,  disse que era médica, e perguntou-me o que é que se passava comigo… Eu disse que já tinha contado ao colega dela há um bocado, ela respondeu que houve mudança de turno, mas que ia ver no computador, confirmou os meus dados, e disse que os “Raio X” ao tórax eram parcelares, e de lado, e eu disse que era de onde me queixava, mas ela disse que os “Raio X” e as análises estavam todos bem, que me ia auscultar e medir a tensão e que em princípio me ia dar alta. Na auscultação estava tudo bem. O aparelho da tensão era o mesmo que me tinha dado 17-10, e continuava a dar o mesmo valor. Perguntei se o aparelho não estaria avariado, ou se eu estaria com o “Síndrome Hospitalar”, ao que ela respondeu: “Diga-me o senhor…, mas vou dar – lhe um comprimido para baixar a tensão, e já agora vamos medir a tensão noutro aparelho aqui ao lado…”. Deu precisamente o mesmo valor…

Fomos ter com a “Enfermeira”, para me dar o tal comprimido para a tensão, e me tirar o cateter, a “Médica” entretanto foi-se embora, e eu perguntei se ia ter Alta, a “Enfermeira” foi ter com uma das pessoas que estava num dos computadores, perguntou-lhe qualquer coisa, e eu vi a cabeça dessa pessoa a abanar para cima e para baixo… A “Enfermeira” veio dizer-me que me podia ir embora…

Assim fiz, passei pela sala de espera desejando as melhoras aos que ficavam, e dirigi-me para a saída, dizendo adeus ao segurança, que também me desejou as melhoras, e encaminhei-me para o carro da Ana, que estava convivendo com outros vizinhos expectantes. Eram quase 23 horas.

Arrancámos para casa, e eu fui telefonando às pessoas com quem a Ana tinha falado, a dizer que já estava na rua.

Quando chegámos a casa, a Ana disse para despir a roupa toda e metê-la na máquina de lavar, menos o casaco e o boné, que esses iriam depois para a limpeza a seco. E eu tomei um duche e vesti o pijama e o roupão.

Entretanto tocou o telemóvel dela, era um número fixo desconhecido, ela não atendeu. Logo a seguir tocou o meu telemóvel, era o mesmo número fixo, e eu atendi. Perguntaram se era eu, disse que sim , disseram que era do Hospital de Cascais, e se eu já estava em casa… disse que sim, e reponderam-me que então tinha de voltar ao hospital, porque tinha havido uma falha de comunicação e a médica não me entregara uma receita…

Perguntei se podia lá ir a minha mulher, porque não me estava a apetecer muito vestir-me outra vez, porque já estava de pijama, e ele disse que sim, que podia, e para ela dizer que ia buscar uma receita em meu nome ao gabinete 7.

A Ana, que não comia nada há uma quantidade de tempo, pegou nuns pacotinhos de bolacha Maria, e lá arrancou para uma noite de chuva a caminho do Hospital…

Quando lá chegou, conforme contou quando chegou a casa, o funcionário do atendimento, percebeu logo que era o meu caso, e veio a própria médica, desta vez de bata branca, trazer-lhe a receita, com um analgésico e antipirético, e um relaxante muscular e antiespasmódico…

No dia seguinte de manhã, recebi outro telefonema de mesmo número fixo, a perguntar se eu era o senhor Eduardo João Martins, e a comunicar que estava a falar do Hospital de Cascais, só para me dizer que o Teste do Corona Vírus dera negativo.

Eduardo Martins

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25 de Abril de 2020


Posted By on Abr 25, 2020

Numa feliz convergência entre um poema escrito por Jorge Castro, concluído em 24 de Abril de 2020, ao qual João Paulo Oliveira, em pleno 25 de Abril de 2020, juntou música e voz, nasceram estas Quadras de Abril, que convosco partilhamos:

QUADRAS DE ABRIL – 2020

deste Abril eu sei o mar
de esperançosas caravelas
sei de Abril o ser e o estar
de brumas ou mar de estrelas

sei de Abril o amanhecer
como se em palco um ensaio
nos fizesse aperceber
os fulgores do mês de Maio

sei de Abril quanto é de nós
sentir da terra o alento
de se ouvir a nossa voz
p’ra onde a levar o vento

sei de Abril quanto é de mim
sentir da terra os fulgores
que me fazem ser assim
entre ódios colher amores

e entre as quatro paredes
do quarto onde me confino
lanço ao mar as minhas redes
e faço de Abril um hino

sei desse Abril na clausura
como nasce uma vontade
de pressentir a aventura
na ânsia de liberdade

e saber de um mundo novo
mesmo ao alcance da mão
saber que ali entre o povo
é que mora o meu irmão

já vejo a florir um cravo
rubro verde e senhoril
haja acalmia ou mar bravo
porque Abril é sempre Abril

  • Jorge Castro – 25 de Abril de 2020

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Por razões de todos sobejamente conhecidas e quebrando um salutar hábito que já leva vários anos de existência, neste ano de 2020 não poderemos dar, nos moldes habituais, o nosso contributo à comemoração desta data matricial.

Mas se estamos impedidos por razões óbvias a fazê-lo nesses moldes habituais, nada nos impedirá de o celebrar, de modo alternativo, mas com idêntica exaltação. Aqui vos deixamos duas sugestões, com as quais estamos solidários:

  • Do Gabinete de Comunicação do Município de Oeiras

Comemorações do 25 de Abril de 1974 Online

  • Da Associação 25 de Abril:

E um poema alusivo da autoria de Fátima Camilo:

Quarenta e seis anos passaram
desde que chegou a liberdade
numa manhã serena de Abril
com cravos, soldados e felicidade

E o povo saiu à rua
em apoteótica euforia
cantou, chorou, brindou,
na festa que durou até ser dia

Já vai na meia-idade e liberdade
nascida em Abril de madrugada
formosa e nem sempre bem segura
caminha em frente determinada

Cabe-nos a todos a responsabilidade
de manter vivo este legado
fazendo sempre mais e melhor
por um país equilibrado
tornando os ideais de Abril
na melhor história da humanidade

Mesmo confinados em casa
por culpa de virus traiçoeiro
será cumprido Abril,
o dia limpo e inteiro
e mesmo sem cravo na lapela
cantarei Grândola à janela!

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Autor: Henrique Seruca

O HOMEM DA BOINA BASCA

Corria o ano de 1972. Eu já tinha o meu estatuto legalizado em França, como refugiado político, e um passaporte concedido pelas Nações Unidas. Conseguira inscrever-me num Curso de Estudos Especiais em Cirurgia Geral no Hospital Purpan, em Toulouse, e obtivera uma bolsa de estudos da Fundação Calouste Gulbenkian.

Com uma licenciatura portuguesa em Medicina, não tinha a mínima hipótese de poder trabalhar como médico em qualquer parte da França. Com sorte, estava a trabalhar como ajudante de enfermagem, “au noir” (clandestinamente). E eu queria especializar-me em Cirurgia Cárdio-Vascular. Por isso, fiz uma pesquisa dos principais centros médicos com aquela especialização, em todo o mundo. O mais próximo ficava na Suíça, em Genève. Assim, apanhei o comboio para aquele país.

À chegada, fui retido no posto fronteiriço durante quase duas horas. O meu estatuto de refugiado político despertava desconfiança nas autoridades. Para mais, eu estava de fato e gravata, o que era estranho para a minha idade, quatro anos após o Maio de 68 em França. Finalmente, deixaram-me passar e pisar terras helvéticas.

Fui directamente para o Hospital Cantonal de Genève, ao serviço de Cirurgia Cardio-Vascular, para falar com o Professor Charles Hahn, uma das sumidades mundiais naquela especialidade. Espantosamente, fui recebido, com muita cordialidade. Expus a minha situação e as minhas ambições e ele esclareceu-me: só dali a cerca de dez anos ele teria uma vaga para eu, eventualmente, poder entrar como interno. Até lá, já as vagas estavam todas preenchidas. Sugeriu-me ir trabalhar, entretanto, como clínico geral, no Hospital de La Chaux-de-Fonds, que precisava de um médico.

A minha decepção não podia ser maior. A possibilidade de trabalhar como clínico geral em La Chaux-de-Fond durante uns bons 10 anos, até ter uma hipotética entrada numa especialização em cirurgia cardio-vascular, estava fora de questão. Não havia justificação para eu prolongar a minha estadia na Suíça.

Dirigi-me à estação ferroviária e comprei um bilhete em 3.ª classe de regresso a Toulouse, no comboio da noite. Não me podia dar ao luxo de pagar um quarto em Genève e dormir numa cama, nessa noite. Tentaria dormir no comboio.

Comprei uma sanduiche e uma garrafa de água no bar da estação. Foi a minha refeição do dia.

Na hora de entrar no comboio, procurei o meu lugar. As carruagens estavam divididas em compartimentos fechadas por portas, com um banco corrido de cada lado da divisão. Cada banco era destinado a três pessoas. O meu compartimento estava vazio e eu achava-me cheio de sorte. Àquela hora a frequência era muito reduzida e talvez eu me pudesse estender num dos bancos e dormir na horizontal. Foi uma pura ilusão. À hora da partida entrou um homenzinho baixo, de óculos, com uma malinha, boina basca na cabeça e ar ofegante. Perguntou-me se a carruagem tinha mais algum passageiro, ao que eu respondi negativamente. Ele tirou a boina e instalou-se no banco em frente ao meu.

Mal o comboio partiu, preparei-me para me estender no banco e tentar dormir, mas o homem meteu conversa comigo. Perguntou-me que idade eu tinha, de onde era, para onde ia, o que eu fazia. Eu, muito contrariado, lá fui respondendo, desejando que o homem se calasse. Qual quê, ele não parava de me fazer perguntas e eu desesperava. Eu disse que era médico e refugiado político em França, e ele informou-me que era padre e que gostaria muito de ter a minha opinião sobre vários assuntos. E a conversa começou a fluir, espantando o meu sono e cansaço.

O primeiro tema foi o problema do aborto. Na época, eu era absolutamente contrário a qualquer tipo de aborto que não fosse para salvar a vida da grávida, em caso extremo. E ele contrapunha que em determinadas circunstâncias era preciso ponderar muito bem os condicionantes. Queria saber o que eu achava em situações de violação, de estupro, de prostituição, de condições de miséria extrema. E queria que eu apontasse soluções para as situações extremas em que eu me opunha ao aborto. Para minha surpresa, ele tinha pontos de vista de tolerância, que eu não aceitava, e foi justificando, com lógica.

Desse tema passou a outro, e mais outro, e mais outro. Todos diferentes, de grande interesse e importância.

Quando dei por ela, era manhã e o comboio parava em Toulouse, com destino a Paris. A noite passara num instante, numa das conversas mais apaixonantes que eu tive em toda a vida. Eu saía ali e ele seguia para Paris, para o convento de Saint Jacques. Despedimo-nos, pediu a minha direcção e deu-me um cartão de visita seu, que eu guardei no bolso, sem olhar.

Cheguei a casa, desanimado com a minha deslocação a Genève, mas enriquecido por uma magnífica troca de ideias. Beijei a mulher e os filhos, arrumei a pasta e o casaco e lembrei-me do cartão de visita. O nome não me era estranho: Hervé Legrand. As notícias do dia esclareceram-me.

O padre era um dominicano francês de grande relevo, pelos artigos que li nos jornais. Regressava de Genève, onde representara a igreja Católica numa comissão acabada de criar entre a Conferência das Igrejas Europeias (KEK) e o Conselho das Conferências Episcopais Europeias (CCEE), que englobava representantes católicos, protestantes, ortodoxos e anglicanos. Uma importantíssima reunião das várias religiões cristãs.

Dias depois, recebi uma carta do padre Hervé Legrand, com um artigo seu, muito interessante, sobre o problema do aborto. Com grande pena minha, perdi-o na minha mudança para o Canadá.

Como diria Fernando Pessa, do homem de boina basca: “E esta, hein?…”

  • Henrique Seruca
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Autora: Fátima Camilo

ÀS VEZES SONHO COM O MAR

Era uma vez um pequeno Grão de Areia que vivia numa praia que tinha uma fortaleza, surfistas e outros atletas, muitas pessoas a andar de um lado para o outro e até um farol lá ao longe.

Muitas vezes o Grão de Areia pensava se era realmente bom viver ali. Afinal nunca tinha sossego, nem de noite nem de dia, ora por causa das pessoas que andavam sempre a pisá-lo, ora por causa das ondas que não o deixavam dormir.

Já várias vezes lhe tinha passado pela cabeça mudar-se para outro sítio, mas nunca tinha viajado e por isso não sabia se o outro sítio era longe ou perto, nem quanto tempo demorava a chegar lá.

Na verdade também não tinha relógio. Sabia apenas que havia dia e noite. Que o Sol não estava sempre no mesmo sítio e que a Lua não era sempre igual.

Um dia estava o Sol já perto do forte, quando um surfista começou a despir o fato que tinha usado para escorregar nas ondas. Num repente o Grão de Areia decidiu que aquele era o momento para experimentar sair dali e ir para o tal sítio. Escondeu-se muito bem na bainha da manga do fato e apesar de ter estado prestes a dar uns valentes trambolhões de cada vez que o surfista sacudia a areia do fato, lá conseguir escapar e começou a sua
primeira viagem.

Era tudo novidade!

De repente o surfista parou. O Grão de Areia preparava-se para espreitar a sua nova morada, quando começou a ouvir barulho e a sentir a manga a ficar ensopada. Nem ele sabe como conseguir resistir a tamanha tromba de água.

Quando finalmente espreitou para perceber onde estava, olhou e viu lá ao fundo o mar, o forte e o farol. Percebeu então que estava no duche da praia. Até agora só conhecia este lugar pelo barulho que ouvia da água, sobretudo à noite, quando os forasteiros abriam a torneira e o acordavam.

Depois desta enxurrada fez-se silêncio.

Teria acabado a viagem? O melhor era manter-se na bainha e aguardar…

Num gesto brusco, o fato que entretanto estava escorrido, foi dobrado e guardado num saco.

Não tem graça nenhum estar num sítio que se mexe, que é escuro e não tem ar. Ainda por cima esta mudança de sítio é mais longa. Parece que nunca mais acaba.

Para quem nunca tinha feito uma viagem, andar assim tanto tempo, mal instalado e ansioso, não é fácil e pior ainda para quem sempre viveu ao ar livre e agora nem sabe tão-pouco por onde está a passar…

O Grão de Areia já estava a admitir que não devia ter-se metido nesta aventura, mas agora não havia nada a fazer.

Um estrondo! Um valente safanão! Vozes de pessoas, uns sons que parecem de animais… e ele que só conhecia o som das gaivotas e dos golfinhos…

Finalmente saiu do escuro. Ainda havia Sol, mas por precaução continuava dentro da bainha.

Fez-se silêncio. Era altura de tentar sair do esconderijo. Espreitou e apesar de estar um pouco longe do chão, arriscou saltar.

Olhou em volta. Era tudo novo. O sítio, não era como o Grão de Areia imaginava. Na verdade, ele não tinha formulado nenhuma ideia concreta. Só sabia, de ouvir dizer, que sítio era uma coisa que existia, agora se era
belo ou feio, se tinha cor, se era silencioso ou barulhento… não sabia mesmo nada.

Nesta mistura de entusiasmo e receio, ouviu algo que não conhecia e num ápice ficou literalmente esborrachado por algo quente e peludo.

Susteve a respiração e ficou ali mudo e quedo….Assustado e cansado, adormeceu!

Nunca tinha dormido tão quente. Nem nas noites de Verão, mesmo aquelas em que não corre uma aragem.

Aquilo que apareceu sabe-se lá de onde, saiu finalmente de cima do Grão de Areia.

Silenciosamente abriu os olhos e viu a Lua. Devia continuar a dormir, mas faltava-lhe o embalo das ondas. Foi uma noite e claro!

Quando o Sol nasceu, ensonado e triste, pensou no seu mar de prata. No
farol de pedra branca que brilhava ainda mais nas manhãs límpidas, mas
tinha escolhido sair da praia e tinha de viver com essa realidade.

Todos os dias o fato saía do estendal. E todos os dias o Grão de Areia imaginava a mesma rotina. Vai ao mar, sai do mar, sacode, passa por água, viaja sem luz e sem ar, estende e seca ao luar…

Os dias não tinham nada de novo. Não havia por ali gente, nem atletas, nem a água daquele chuveiro que o acordava de noite.

Estava na hora de tentar regressar à sua praia, de onde nunca devia ter saído. Era preciso encontrar um plano, porque agora no chão, como iria saltar para o seu esconderijo?

Há já algumas luas e sóis que o fato estava ali pendurado sem sair do sítio, o que era muito estranho!

Num final de tarde, lá vinha ele. O surfista vinha ao telefone com alguém… Ouvi-o dizer que estava triste por não poder ir para o mar, que havia um vírus e que era proibido andar na praia, mas que acatava e ficava em casa. Por muito que lhe custasse, ficava e pronto!

Nada naquela conversa fazia sentido para o Grão de Areia, que vivia há uma eternidade na praia e que nunca se constipou nem ficou doente. Muito menos ouviu falar de vírus. Pelo areal e pela beira-mar, as únicas coisas menos boas de que se fala, são as alforrecas, as caravelas portuguesas, o peixe-aranha e o camião que limpa e alisa a areia, mas que invariavelmente o deixava sempre fora do seu lugar.

Era cada vez mais penoso dormir. Não era o único. O surfista também não conseguia e por essa razão vinha muitas vezes dar umas voltas ao sítio. Andava de um lado para o outro inquieto, nervoso, triste. Às vezes via-o chorar e chorava com ele.

Estavam ambos no sítio, impedidos de sair dali, sem poder ver o mar. O Grão de Areia, no pouco tempo que dormia, sonhava…Sonhava que um dia ia conseguir saltar de novo para o esconderijo para fazer a viagem de regresso à sua praia, de onde via a fortaleza, o farol, o Sol e a Lua.

E sonhava tão alto, que até o pólen das flores que viviam no terraço o ouviam dizer:

Juro que nunca mais me vou aborrecer com o barulho da água que me acorda, nem com o frenesim das pessoas, nem com as ondas agitadas. Vou valorizar ainda mais o meu modesto viver, o meu espaço, os meus vizinhos grãos que são tantos e a quem eu pouca importância dei toda a minha vida, vou apreciar mais a brisa, o despertar do dia e o entardecer, o vozeirão do vendedor das bolas, os gritos das crianças…

Às vezes todos sonhamos com o mar.

Fátima Camilo

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