Posted By on Jun 2, 2022

A Propósito de Nagazaki  e Tanegashima

EMACO


A Propósito de Nagazaki  e Tanegashima

                                                                   (1543 – 2021)

                           “A Chegada e a Memória da Presença Portuguesa no Japão”

Texto e compilação de imagens da autoria de Maria Margarida Mendes Pinto Farrajota.

A  propósito da comemoração feita em Nagazaki a 20 de Novembro de 2021 para celebrar a chegada dos portugueses ao país do Sol Nascente e onde um coro exclusivamente composto por japoneses, entoa na nossa língua, o nosso Hino, após 450 anos sobre aquele acontecimento, lembrei-me de relatar alguns pormenores sobre a origem dessa ligação ao Japão!

Foto 1 – Coro de Nagasaki

Desde 1543, há portanto quase meio milénio, que os Japoneses mantêm essa ligação afectiva, única no mundo, para com o nosso património histórico, para com aqueles a que apelidaram então de Namban Jin e que um dia, foram ao seu encontro do outro lado do Planeta. Mais do que então, em pleno século XXI, agora é que nos poderiam apelidar com toda a propriedade e pelos piores motivos – de namban-bárbaros!

Foto 2 – Biombo sobre a Chegada dos Portugueses ao Japão

 Trata-se de uma longa e longínqua história que remonta ao século XVI, tendo como personagens centrais, Fernão Mentes Pinto e Wakasa; como repercussões históricas, a unificação do Japão pela introdução das armas de fogo; e como herança, todo um património luso, preservado não por nós, mas pelo povo japonês há quase meio milénio.

E, para um melhor enquadramento dos acontecimentos, vou tentar resumir em três pontos a situação geopolítica, militar, histórica, geográfica e comercial encontradas pelos portugueses nesse encontro entre civilizações, sobretudo as consequências  desse encontro, as quais alteraram definitivamente a História do Japão:

1 – Contexto Histórico (Períodos Sengoku e Edo);

2 – Nagasaki;

3 – Tanegashima (consequências).

1 – Contexto Histórico

Na história do Japão e, recuando à época em que F.M.P. lá desembarcou, podem identificar-se diversos Períodos (idênticos às nossas dinastias):

Período Sengoku – Desde meados do séc. XV até último quartel do séc. XVI.

Foto 3 – Xogunato
Foto 4 – Batalhas Feudais

Foi uma época de lutas internas constantes, durante a qual os diversos clãs viviam numa quase permanente guerra civil e que durou até à Idade Moderna, correspondendo a cerca 200 anos de um regime feudal, o Xogunato.

Os seus representantes eram  os Xogum’s (abreviatura de Seii Taishogun – título militar dado directamente pelo Imperador) e os Daimyo’s (dai – grande, myo – terra  – título dado a um senhor de terras).

Enquanto o 1º tinha um cargo de general, comandava um exército e a sua autoridade era nacional, o 2º era um proprietário privado, detinha terras e era uma autoridade regional.

Em 1543, o poder na Ilha de Kyoshu era exercido pelo 13º Xogum Ashikaga Yoshiham (1511 – 1550) do Xogunato do Clã Ashikaga (1336 – 1573) .

O período Sengoku terminará com a unificação do Japão. Na sua liderança estiveram os Daimyo´s Oda Nobunaga e o seu adjunto Toyotome Hideyoshi (*referidos adiante).

Período Azuchi – Momayama (1573-1603).

Período em que é derrotado o 13º Xogun do Clã Ashikaga pelo exército de Oda Nobunaga que avança sobre Kyoto, dando-se início à reunificação do Japão, dividido na época por cerca de meia centena de divisões feudais (vidé mapa de 1564-73).

Foto 5 – Japão-Divisão

 Período Edo, Tokugava ou da Paz Ininterrupta – Desde o séc. XVII ao XIX.

Foto 6 – Xogunato Tokugava
Foto 7 – Onda Kanavaga – Símbolo EDO

Ao contrário do anterior, este período trouxe 200 anos de estabilidade ao Japão, apesar de um quase total isolamento político e económico e cujo símbolo é representado pela Onda de Kanavaga.

O sistema político sofreu uma evolução para uma nova unidade na estrutura feudal, conjugando autoridades centrais e descentralizadas. Era o  Bakuhan (Baku – império, han – domínio).

Este período, consolidou o controle de um país entretanto unificado, com especial relevo para os Daimyos e Xogums (vidé fotos abaixo), que tinham influência e poder sobre a corte, sobre as ordens religiosas e sobre o próprio Imperador que, apesar da sua legitimação política, só aparentemente eram dele seus vassalos, ajudando até a família imperial a recuperar as glórias passadas.

2 – Nagasaki

Foto 8 – Cidade e Baía de Nagasaki
Foto 9 – Selo Comemorativo

Ainda no período Sengoku (1549), dá-se a chegada a Kagoshima de missionários Jesuítas entre eles, Francisco Xavier, cujos seguidores converteram vários Daimyos ao catolicismo, o 1º dos quais Omura Sumitada. Este, em 1569 concede aos portugueses, uma licença para o estabelecimento de um porto para as suas embarcações, na Ilha de Kyushu, que viria a ser Nagasaki (nome que quer dizer Cabo Longo), cidade criada em 1571, a qual ficaria sob administração portuguesa, partilhada pelo Jesuíta Gaspar Vilela e pelo Capitão Tristão Vaz de Veiga.

Foto 11 – Omura Sumitata

O rápido crescimento deste porto comercial, transformou-se em pouco tempo numa importante cidade onde  chegavam, quer os produtos portugueses importados, quer onde se refugiavam os cristãos perseguidos noutros locais do Japão.

Alguns daqueles produtos, que deixaram rasto na cultura oriental, referem-se a bens ou a costumes que chegavam pela 1ª vez ao Japão. Comercializados, eram assimilados de imediato pelos japoneses, deixando o seu testemunho na maioria das palavras relacionadas com eles:

na náutica – nau (nau); boto (barco); masuto (mastro); kaputen (capitão); astrolabe (astrolábio);

Foto 12 – Nau

 – na gastronomia – pandoro, castela ou Kasutera (pão-de-ló, pelas claras em castelo), hoje a especialidade de Nagazáki; kompeito (confeite/rebuçado); bisutto (biscoito); pan (pão); supu (sopa); shurasuko (churrasco); arukoru (álcool);  tempura (de tempero ou das têmporas) vegetais fritos envolvidos num polme fino, derivados dos nossos peixinhos da horta, para a altura religiosa em que não se podia comer carne;

Foto 13 – Kasutera  
Foto 14 – Tempura

 – no vestuário – kappa  (capa); jiban (gibão); choki (colete); meiuyasu (meia); rasha (sarja); botan (botão); birudo (veludo); sandaru (sandália); butsu (botas);

no artesanato/utensílios – subeta (espada); arquebuz (arcabuz); masuketto (musquete); biidro (vidro); furasto (frasco); jouro (jarro); kandei (candeia); banku (banco); karuta (cartas de jogar); katarogu (catálogo); shabon (sabão); kappu (copo); potto (pote); charumera (charamela-instrumento musical de sopro);

Foto 15 – Arcabuz e Polvoreiras

na zoologia – erafanto(elefante); buffaro (búfalo); baison (bisonte); zebura (zebra); gorira (gorila); chinpanji (chimpazé);

na botânica – orenji (laranja); marumero (marmelo); tabako (tabaco); além da introdução de árvores de fruto como a oliveira, pereira, figueira, marmeleiro e pessegueiro;

na arte/religiãoa perspectiva e a representação do desembarque das naus nos biombos; iesu (Jesus); iruman (irmão); kurusu (cruz); crucifix (crucifixo); misa (missa); miira (mirra); rozario (rozário); jesuit (jesuíta);

Foto 16 – Biombos Namban

  – na divulgação escrita/termos –edicção do 1º dicionário Japonês/ /Português; 1ª gramática de japonês por João Rodrigues; introdução da imprensa / ne (não é?); arigato (obrigada).

Estes apenas alguns exemplos, pois existem na língua japonesa mais de 4000 palavras como legado e/ou influência  da nossa língua, a qual era ensinada nos templos budistas japoneses.

3 – Tanegashima

Tanegashima, situada a Sul do Japão, foi a ilha onde aportou a “Nau do Trato”, aquela em que navegava Fernão Mendes Pinto, corria o ano de 1543.

Nela o poder era exercido pelo Daimyo Katotikata (1528-1579), senhor feudal que se encontrava à semelhança dos demais, numa guerra civil que durava vai para 100 anos.

Foto 17 – Tanegashima
Foto 18 – Barco Negro– Kurofume

 A chegada do “barco negro” (kurofume), foi no entanto pacífica, tendo despertado desde logo, uma enorme curiosidade e espanto pela estranheza, quer da desconhecida embarcação, quer dos seus ocupantes, língua e costumes. Tudo a bordo constituía uma enorme novidade e também um choque civilizacional. Por razões culturais, étnicas, linguísticas e dos costumes, logo foram apelidados de Namban Jin (Bárbaros do Sul).

Maior espanto contudo, foi o provocado pelo disparo dos arcabuzes, armas de fogo com que vinham munidos  os estrangeiros, tendo o Daimyo Katotikata afirmado ser tal arma, a maior maravilha que vira em sua vida.

Foto 19 – Arcabuz 
Foto 20 – Daimyo Katotikata

Todas estas estranhas novidades, para quem pela 1ª vez as presenciava, deram  não só azo a uma calorosa recepção, como ao desejo de obter o segredo daquela espantosa arma de fogo.

Ao longo desse demorado processo, encontrava-se de permeio nas prolongadas negociações, uma jovem de quem F.M.P. entretanto se tinha agradado. Desejando tirar vantagem sobre a eventual entrega de tal segredo, cujo objectivo era o fabrico de arcabuzes para os japoneses, aquele seria entregue pela troca da licença para desposar Wakasa, nome da jovem pretendida pelo capitão português.

Mas a proposta de F.M.P. contrariava todos os cânones e tradições que assistiam a um Namban Jin! Resistiu o Daimyo quanto pode, acabando por conceder tal exigência ou não poderia obter tão almejado segredo e consequentemente a vantagem que antevia sobre os seus adversários, acabando com a guerra em que se via envolvido.

A troca realizou-se e a boda consomou-se a contento dos envolvidos.

Ao contrário do final…e foram felizes para sempre, F.M.P. pouco depois anuncia que tem de partir para explorar novas paragens, prometendo regressar a Tanegashima.

Decorreu um ano, durante o qual Wakasa não dispensava perscrutar o horizonte no cabo KadoKura, na esperança de avistar a partir dele, as velas da nau e o regresso do seu amado.

 Não foi em vão que a sua persistência lhe negou a recompensa de finalmente um dia, avistar o tão desejado barco negro.

Porém por breve tempo, pois a enorme alegria e entusiasmo, contidos por toda essa longa ausência, precipitaram as suas esperanças e com elas a sua queda do alto promontório.

O reencontro trágico aconteceu, mas para o navegador português contemplar à chegada o seu túmulo, no local onde diariamente Wakasa enchia o olhar e o coração com o largo oceano.

Contrariando a tradição e a família, Fernão Mendes Pinto, regressou a Portugal com o filho de ambos.

Os séculos passaram e, aquando das comemorações dos 450 anos da chegada de F.M.P. a Tanegashima, era convidada para nelas participar, a investigadora Mª Helena Mendes Pinto, especialista de Arte Namban, de quem recolhi o testemunho.

Foto 22 – Mª Helena Mendes Pinto
Foto 23 – MHMP (Colagem artística-Namban)

Em Julho de cada ano, Tanegashima celebra o Festival da Espingarda (Teppo Matsuri), festejando a presença e a herança legada por um povo estrangeiro, que um dia desembarcou naquela ilha, deixando gravada na memória do tempo, não só uma história de amor, como uma revolucionária mudança política e um património cultural único.

Com a duração de 2 dias, as festividades decorrem com diversas manifestações e desfiles, a que toda a cidade assiste.

Foto 24 – Teppo Matsuri

No Museu da cidade, construído em forma de Nau, tem lugar uma representação que relata a história de F.M.P. e Wakasa, do segredo e do trágico desfecho. No meio do palco, um único adereço como motivo central – o arcabuz do marinheiro.

Foto 25 – Museu da Espingarda em Tanegashima

Após a representação, o longo cortejo de japoneses envergando rigorosa  indumentária do século XVI e empunhando arcabuzes, percorrem as ruas da cidade ao som das cigarras do verão e da Banda Militar tocando  marchas de John Filipe de Sousa (por coincidência também ele músico luso-americano dos Açores).

Os festejos do 2º dia terminam quando o cortejo se dirige em romagem ao Cabo Kadokura, depositando no túmulo de Wakasa, açucenas, designadas em Tanegashima por lírios da espingarda (Teppolili).

Foto 26 – Teppolili – Lírios da Espingarda

 Esta história de amor, personalizada por dois amantes de mundos tão distintos,  representa para os japoneses, o mesmo que para o ocidente a de Romeu e Julieta, com a diferença desta ser ficcionada.

Em sua homenagem impõe a tradição que, qualquer desfecho amoroso na vida só terá sucesso se o pedido for efectuado em romagem ao túmulo de Wakasa. Essa tradição fez deste túmulo um caso único no mundo – tem flores frescas todos os dias, há quase cinco séculos!

Consequências

A unificação do Japão foi conseguida em breve pela  utilização dos arcabuzes, os quais

permitiram novas técnicas bélicas e táticas militares, introduzidas no plano militar, pelo *Daimyo Oda Nobumaga e o seu adjunto o Daimyo Toyotomi Hideyoshi  (batalhas de Mikatagahara-1573, de Nagashimo-1575 e de Sakigahara-1603) assinalando-se o triunfo da arma de fogo e o fim da cavalaria medieval; no plano político, pelo Shogun Tokugwa Teyasu que, através de alianças e casamentos, ganhou poder sobre os Daimyo’s.

Foto 27 – Batalha de Nagashimo  
  • Mª Margarida Mendes Pinto Farrajota

1 Comment

  1. Obrigado por partilhar esta informação, que de forma tão vivida nos transmitiu na sessão na Casa da malta !

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