Texto de autor


Autor: Fernando Lopes

Numa cálida tarde de Agosto, um avião fazia-se à pista do Aeroporto Humberto Delgado. Apressados, os passageiros depararam-se com uma greve dos SEF que os fez esperar em filas intermináveis. Muitos estavam em trânsito para outros destinos. Poucos, passado o aborrecido contratempo, acabaram por sair e procuraram transporte que os levasse aos seus destinos. Uma mulher, vestindo algo vintage, destacava-se pela postura nobre e traços de uma beleza afro-europeia que a notória idade parecia não esconder. Atónita, perguntou por um transporte para as Portas do Mar. Um taxista solícito, indicou-lhe o próximo carro de praça, enquanto lhe dizia que ainda sabia onde era a Ribeira! Mas as Portas do mar? Dúvida que o GPS resolveria. Pálida, a passageira parecia confusa. Chegados ao Cais do Sodré, de que se recordava de nome, pediu que a levassem às suas terras do Reguengo de Oeiras. Queria visitar um Convento de Freiras que ficava na sua antiga quinta de Laveiras. Sim, ali para os lados de Caxias, responder-lhe-ia o taxista, alegando conhecer bem o local. Fora lá que aprendera a ser homem e onde tirara um curso de encadernação hoje inútil. Certamente tivera os bondosos arrábidos por mestres. pensou a passageira. Afinal não dera por mal empregue os milhares de reais que doara à Misericórdia de Lisboa para construção do Convento e sustento dos frades. No caminho recordou-se da capela que encomendara a Mestre João de Ruão, para ficar naquela Real Instituição, perto do Paço da Ribeira, e onde repousariam os ossos de Luís de Almeida, seu saudoso marido.
Num ápice, como se fossem várias as parelhas de cavalos que arrastavam a sua carroça, chegaram às terras de El Rey e suas, por aquisição e mercê do malogrado D. Sebastião que a fez morgada da Laranjeira, em São Tomé. Reparou nas gentes de diversas origens que se atravessavam nas ruas. Certamente o negócio de cativos continuava florescente, observou para si mesma. Por ali estariam muitos dos descendentes que foram seus servidores, traficados da Mina, alguns por si alforriados. Afinal, eles haviam feito a sua fortuna, trabalhando no Reyno, nas suas fazendas de ouro branco das Ilhas da Guiné ou, muitos mais, na mercancia com os brasis e as índias de Castela.
O crepúsculo anunciava a chegada da noite, quando a viatura estacionou frente a uma Igreja imponente. O condutor esclareceu Dona Simoa Godinho, de seu nome, que aqueles edifícios eram a antiga casa dos monges cartuxos. Que estes há muito haviam abandonado o Mosteiro que, depois de quinta agrícola, fora quartel, depois centro de reeducação e por fim escola. A cerca e o Mosteiro haviam sido entregues recentemente à Câmara de Oeiras para reabilitação e restauro, por forma que se respeitasse a Memória e a História daquelas paredes.
Um barulho audível parecia provir do Claustro Maior. Não, não era de um coro entoando vésperas, mas antes de algum espectáculo bem mais mundano. Que estranho naquele local, pensou a devota senhora, temente da Santa Igreja e da sua Inquisição que se obrigara a respeitar, doando e recebendo a absolvição por missas perpétuas e por dedicação das suas donas merceeiras.
– Então, apesar das máscaras, não acha bem melhor? Perguntou-lhe o condutor. Não obteria resposta, pois a passageira já não estava ali. No banco de trás, agora vazio, restava uma moeda reluzente. Mais tarde, juraria aos seus colegas da praça que tinha feito aquela corrida até Caxias. E que a prova estava no taxímetro e não no piloto automático.

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Autora: Ana Gaspar

No final do século XVIII, os médicos começam a recomendar os banhos de mar como cura de algumas maleitas, como o raquitismo infantil, a palidez juvenil, mas também a infertilidade feminina e a impotência dos homens – não fossem os vigorosos marinheiros um exemplo de larga procriação.

Tendo o concelho de Oeiras uma larga costa marítima, e ficando situado tão próximo da capital, não é de estranhar a sua utilização para esses fins.

Assim, os primeiros banhos de mar tomados no concelho de Oeiras que conhecemos tiveram o propósito de garantir a descendência aos segundos condes de Oeiras. Casados desde 1764, altura em que D. José agraciara o jovem casal com o mesmo título que ao pai pertencia, Henrique José e D. Antónia não tinham filhos, representando uma tremenda preocupação familiar.

A 14 de Junho de 1778, o velho marquês, Sebastião José, de Pombal onde se encontrava exilado, responde a uma carta do filho primogénito, congratulando-se por dois motivos: “Um o de ser escrita em Oeiras; outro o de ter essa tua assistência por causa o remédio dos banhos aplicados a Minha querida Filha a Senhora Condeça. Remédio em que Eu tenho uma grande esperança de que a Nossa Casa tenha a felicidade de ser continuada pela dita Senhora.” (Biblioteca Nacional, Colecção Pombalina, PBA 714, fl. 116V). Os condes de Oeiras encontravam-se então residindo em Oeiras e, enquanto D. Antónia tomava banhos de mar, o seu marido aproveitava os banhos do Estoril, mais propícios para os males de que padecia, e também muito apreciados na época. As cartas do pai sucedem-se referindo sempre a grande esperança na obtenção de descendência.

Semelhante problema afetava a família real. O príncipe herdeiro, D. José e a mulher, D. Maria Benedita, casados em 1777, não conseguiam garantir a sucessão. Assim, nove anos depois do casamento, o seu irmão, o príncipe D. João – futuro rei D. João VI – escreve, a 15 de Junho de 1786, à irmã Mariana Vitória que se encontrava em Espanha por via do seu casamento com um príncipe espanhol: “Hoje vai meu mano pelo primeiro dia tomar banhos de mar, os quais vai tomar para diante de Caxias e depois vai jantar a Caxias e são as novidades que por cá há.” (Alice Lázaro, Se saudades matassem… – Cartas íntimas do infante D. João (VI) para a irmã (1785-1787), p. 334).

Um mês depois, a 18 de Julho, o príncipe reforça o que escrevera antes: “Domingo fomos à festa de Nossa Senhora do Carmo, a Caxias e nosso mano lá tomou o seu banho de mar, com os quais tem passado muito [bem].” (Idem, p. 348). No ano seguinte, D. João volta a abordar o mesmo assunto nas cartas que escreve à irmã.

Porém, os banhos de mar exigiam determinadas cautelas: a condessa de Oeiras tinha de sujeitar-se às dolorosas sangrias antes dos banhos (“que as sangrias da minha mana, não tenham outra causa mais que a prevenção para os banhos”, escreve a cunhada Teresa, de Vila Flor (BNP, Colecção Pombalina, PBA 712, fl. 259). E o já referido príncipe do Brasil devia coibir-se de relações sexuais com a princesa: “Acabada a ceia foi para o Quarto da Princesa sua mulher (…) Dizem dera sanhas de se ajuntar com a dita Princesa o que lhe estava proibido pelo referido Principe andar tomando banhos do mar.” (ANTT, Manuscritos da Livraria, n.º 1124, fl. 93V)

Contudo, nem os condes de Oeiras nem os príncipes do Brasil tiveram descendência. Afinal, os banhos de mar podiam servir para curar inúmeras doenças, mas a infertilidade não seria seguramente uma delas.

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Em deambulações pelo «facebook», em 13 de Maio passado, recolhemos este testemunho de Vítor Serrão sobre José Meco que, reconhecidamente, não queremos deixar de divulgar:

«O BOM GIGANTE da História da Arte chama-se José Meco e faz hoje sessenta e nove anos. Não existem muitos sábios assim e não podemos dar-nos ao luxo de os esquecer. Desde há muito reconhecido como nome-referência no campo da Azulejaria, é o maior entusiasta do estudo, salvaguarda e divulgação do Património artístico português no Mundo. Um senhor grande de alma cheia e paixão sem limite, cujo saber sobre azulejo, cerâmica, talha, mobiliário, escultura, artes decorativas, e também sobre arquitectura e as demais artes, atinge dimensão internacional. Tudo o que existe à face da Terra que tenha a ver com o Azulejo enquanto traço vernáculo da nossa cultura já foi em algum momento visto, identificado e valorizado pelo Zé Meco ! Todavia, tanto saber rima com uma modéstia e discrição sem limites, pelo que a sua obra imensa, dispersa por revistas, catálogos, actas de congresso, relatórios e artigos, reclama com urgência uma edição-síntese sobre o sentir dos acervos azulejares portugueses. Um livro imperioso — para quando ?»

(https://www.facebook.com/100001766334152/posts/3863676963701143/?sfnsn=mo)

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Porque é Abril e, nele, o dia 25, aqui vos deixo uma imagem alegórica que o meu filho Alexandre criou a partir de fotografias minhas obtidas nesse dia, em 1974.

Imagem a imagem, é por Abril que vamos.

Foi pela força das armas, não o esqueçamos, que Abril de 1974 aconteceu.

Mas pela força das armas que, a começar pelo Movimento dos Capitães, culminando na incondicional adesão popular, soubemos todos temperá-la com a candura de um cravo.

E, assim, esse momento inspirador e único deu novos mundos ao mundo.

Do meu livro «Abril – Um Modo de Ser», o poema «Abril, sempre!»:

ABRIL, SEMPRE!

na dolência de nos quedarmos tão sós
na cadência sincopada de agonias
contra quanto de tão vil afoga a voz
na premência da urgência de outros dias
não te esqueças desse grito com que alarmas
o presente e o futuro que querias
pois o Abril das quimeras
e utopias
esse Abril rima bem com povo em armas.

Para quem traz Abril no peito, podem ouvir o meu poema de 2021 aqui:

https://www.facebook.com/1271511073/videos/10224546206743937

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Lisboa, 25 de Abril de 1974

Do meu livro Abril – Um Modo de Ser, um excerto do poema Não era nada, quase nada, e era Abril:

(…) e houve um santo e uma senha na alvorada
a erguerem-se numa só feitas à estrada
as vontades de ser livre e ser inteiro
a rasgarem entre o denso nevoeiro
o alvor
a alegria
a liberdade
e mostraram ao país outra verdade

Lisboa, 25 de Abril de 1974

Do meu livro Abril – Um Modo de Ser, excertos do poema Era um tempo feito de verde infinito:

era um tempo feito de verde-infinito
era um tempo de água parda e neblinas
era um tempo de silêncios sem notícias
que ondulava sem carícias contra o cais

era um tempo sem flores ou voo de aves
era um tempo inventado sem jamais
era um tempo sem o azul das maresias
e amarras que prendiam desiguais
(…)
mas no âmago mais fundo que nos resta
nesse dia que que nasceu como os demais
o verde e o azul do mar estão em festa
e amarras nunca mais – oh nunca mais!…

Lisboa, 25 de Abril de 1974

Do meu livro Abril – Um Modo de Ser, excertos do poema A Cor de Abril:
(…)
uma vontade a crescer
no peito que se deslassa
crescendo em nós sem se ver
mas vermos que nos abraça

pressentindo em modo vário
que ao sermos um povo unido
nos fica o medo vencido
e nós um mar solidário.

NOTA – O livro, de minha autoria, Abril – Um Modo de Ser contou com o apoio da Associação 25 de Abril e da Espaço e Memória – Associação Cultural de Oeiras

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