A minha memória de infância leva-me, nestes dias
de quase auto-reclusão, a recordar um episódio que sempre julguei associado à
designada tosse convulsa, cujo nome científico é pertússis ou coqueluche. Ca raio de designação, que desconhecia até
consultar a Wikipédia. Segundo a descrição, esta é uma doença bacteriana
associada a crianças de tenra idade. Ora eu tenho na memória o que a seguir
descrevo. Tal só pode significar que então já tinha mais alguns anitos.
Ora assim foi, lá por meados dos anos 50 do século
passado. Nascido e criado em Caxias de Oeiras terei sido acometido por algum
problema de saúde que preocupou os meus pais. Como era normal na época, uma
família da classe média baixíssima, para não dizer pobre, tão comum no Portugal
salazarento de então, recorria a conselhos de curiosos que, por vezes, eram
também os tratamentos sugeridos pelos João
Semana de então. Não esqueçamos que a tuberculose ainda grassava e, apesar
da BCG estar a chegar, esta doença
ainda requeria o “confinamento”, palavra tão em voga nos últimos tempos.
É num contexto de práticas de terapias
alternativas, que recordo, com alguma imaginação infantil, a lembrança da minha
primeira “grande” viagem além-Tejo na companhia do meu pai. Ainda eram os tempos
em que a talassoterapia complementava, quando não substituía, a medicina
oficial. Saímos da casa onde vivíamos, situada no bairro do Forte de Caxias, mesmo
ao lado do “sinal”, estrutura acastelada, pintada de branco, integrada no
sistema de sinalização da Barra do Tejo e que fora antes o Mirante, sítio
altaneiro e privilegiado pela realeza quando veraneavam na Quinta Real de
Caxias.
Como dizia, lá fomos. Primeiro a pé, por caminhos
de terra batida, depois pela Marginal, então vazia de trânsito, até à Cruz
Quebrada. Aí, por ser uma alternativa mais económica ao comboio, apanhámos o
carro elétrico. Ronceiro, a tilintar, passou pelo Dafundo, depois Algés e por
fim Belém. Ali para os lados do Palácio da Presidência da República, descemos e
procurámos a Estação Fluvial, obra característica do Estado Novo, que
aproveitou os aterros anteriores que fizeram desaparecer o Real Cais de Belém
Comprados os bilhetes, aguardámos o cacilheiro, que já se avistava, pachorrento
e altivo, com a ré coberta por lona e, obviamente, sem janelas. Entrámos e
procurámos um lugar de que pudesse desfrutar melhor da maresia iodada. Esse
devia ser o remédio tão ansiado para cura da maleita. Desperto o apetite para o
farnel, dele recordo as bananas, fruta então exótica e ausente da dieta da
maioria dos portugueses.
O azul do céu, o ar puro e limpo, o cachão
provocado pelo movimento da hélice e a brisa ligeira que entrava nos pulmões
ainda fragilizados do paciente, acompanharam o nosso percurso até à Cova do Vapor.
Ali chegados, um passadiço de madeira levou-nos até um enorme istmo de areia
que, ao tempo, ainda acompanhava, ao longe, as “ilhas” do Bugio, que diziam ser
ainda acessível na maré baixa.
Como a praia não era o destino, apesar de muito em
voga, pouco nos devemos ter demorado. No regresso, ainda sentados à ré, ou à
proa, talvez para continuar a aproveitar a aragem fresca provocada pela
deslocação do cacilheiro. Como num filme, em que o barco e os meus olhos eram a
câmara estática, observava as imagens que pareciam mover-se, deixando para trás
a povoação de pescadores e, a meio do percurso, o casario e a fortaleza da
Trafaria, em cuja praia se vislumbravam, às avessas, as “chatas” de pesca varadas
no extenso areal.
Já com o Sol no seu zénite, aportámos a Belém e
tomámos o caminho de volta, talvez de comboio ou de carro elétrico, não recordo
bem. Certo é que devo ter ficado curado da maleita. Se foi da viagem e da
maresia, ou porque tinha que ser, nunca saberei.
Fernando Lopes, no Alto do Lagoal, Caxias, aos 12 de Março de 2020.
Sequenciando o desafio lançado aos associados da Espaço e Memória, estamos a inaugurar este espaço destinado a textos da autoria dos nossos associados com o primeiro contributo que nos chegou através deHenrique Serucae com o títuloA Embaixatriz.
A embaixatriz
Um dia recebi, no meu consultório em Lisboa, um paciente especial. Era o filho mais velho do embaixador de um país do próximo oriente, acompanhado apenas pelo pai. O embaixador era um príncipe, de religião muçulmana.
O problema do miúdo era uma malformação genital importante que necessitava uma cirurgia correctiva, com hospitalização de vários dias. Explicada a situação ao pai, sugeri a hospitalização numa clínica privada de Lisboa, onde eu realizava cirurgias.
O príncipe-embaixador anuiu, mas solicitou alguns dias para se organizar. A cirurgia nada tinha de urgente e concordei.
Sua Alteza foi ao hospital acompanhado por um secretário e pediu para falar com o director da clínica e visitar o espaço, de alto a baixo. Pediu que lhe fosse reservado todo um piso, apesar de só ocupar uma grande suite. A suite foi limpa, pintada, equipada com um excelente frigorífico e uma grande televisão, e o chão coberto com tapetes orientais enviados da embaixada. Os tapetes estavam contraindicados num ambiente hospitalar, mas Sua Excelência exigiu a colocação dos tapetes, entre os quais três de oração. Na suite foram instaladas três camas, a do paciente, a da mãe, a embaixatriz, e outra para uma aia. À porta do quarto e à porta do hospital foram colocados seguranças da embaixada, em permanência.
A cirurgia foi realizada, com sucesso, e o pós-operatório na clínica decorreu tranquilamente, ao longo de uma semana.
A embaixatriz era uma senhora jovem, envolta num lindíssimo chador que só deixava ver um bonito rosto, sem que se vislumbrasse um só cabelo. Todos os dias o seu vestuário era diferente, ou de algodão finíssimo, ou de seda. Recebia-me com um ligeiro e gracioso aceno de cabeça, respaldada pela aia, qual cão de guarda, que a seguia como uma sombra. Eu fazia o penso, trocava umas palavras em inglês e só voltava no dia seguinte.
Reparei que todos os dias os tapetes orientais eram diferentes dos da véspera. Curioso, perguntei ao pessoal da clínica o que se passava. Explicaram-me que, todos os dias, um funcionário da embaixada chegava com rolos de tapetes debaixo dos braços, trocava os que estavam na suite pelos novos tapetes e regressava à embaixada com os tapetes da véspera. Um luxo verdadeiramente oriental.
O embaixador e a esposa estavam radiantes com o resultado da cirurgia, pois o filho ficara como se nunca tivesse tido qualquer problema no seu aparelho genital. Quando anunciei que o rapaz tinha alta, a embaixatriz sorriu, muito feliz, e disse-me: “Não vá embora, pois quero oferecer-lhe uma coisa…” E foi à outra divisão da suite buscar algo.
Eu não estava à espera de qualquer presente, mas pensei logo: “Vai oferecer-me um tapete oriental, com certeza. Os príncipes do próximo oriente costumam ser muito generosos…”.
A embaixatriz regressou, de sorriso rasgado, com uma caixa de bombons aberta, nas mãos. “Faça o favor de tirar um…”
Amizades, A sessão que estava aprazada para o próximo dia 27 e que eu vos iria anunciar foi cancelada, mesmo antes desse anúncio, por razões que estão na ordem do dia. Também canceladas foram todas as iniciativas previstas para o Dia Mundial da Poesia. Mas estamos aí! Direi que não há vírus que corte a raiz ao pensamento… E se as circunstâncias aconselham e impõem confinamento, seja. Mas a vida continua! Proponho-vos, então, uma sessão virtual, em que todos podem entrar:
– Abaixo segue um poema meu, Jorge Castro, suscitado pelos dias que correm.
Aqueles de vós que assim o quiserdes, respondei-me em forma de poema ou de prosa poética (dimensionalmente contida, claro) e, se não tiverdes problemas de foro autoral, eu publicá-lo-ei, por ordem de chegada, no meu blog Sete Mares (sete-mares.org) e no sítio da Espaço e Memória (espacoememoria.org). Quem sabe, não desagua a coisa em publicação, para depois do vírus…
Jorge Castro, 16 de Março de 2020
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da Lourdes Calmeiro
Resistir para amanhecer:
Se COVID 19 (CoronaVirus) = infectados+pessoas++++mortes — FIQUE EM CASA !!!
Mas as Romãs = Ácido Elágico (antioxidante+anti-inflamatório+imunológico) + zinco + magnésio + vitamina C…
2025-01-26 - um poema na vila - Sob dinamização e coordenação de Ana T. Freitas, a próxima sessão vai ser sobre o tema Quanto tempo o tempo tem? no dia 26 de Janeiro, às 15h, na Galeria do Mercado Municipal de Coruche.
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